quinta-feira, 9 de julho de 2020

Capitães da Areia (1937): Varíola e Questão Social


Marlison Souza Moraes

Nos anos de 1930, na Bahia, Jorge Amado (1912-2001) escrevia de forma crítica acerca da epidemia de varíola – também chamada popularmente de “alastrim” e “bexiga” –, e no impacto que a doença exercia, principalmente, na população mais pobre da sociedade do período.
Publicado originalmente em 1937, o romance “Capitães da Areia” já denunciava em suas páginas a situação de abandono em que se encontravam os meninos de rua nas cidades da Bahia e também do Brasil. Além da própria existência de um tipo de linguagem da violência policial que reprimia ainda mais a vida difícil das crianças que, sob a luz do luar, dormiam em um trapiche abandonado.
Considerado escritor da Segunda Geração do Modernismo brasileiro, conhecida também como “Geração de 30”, o autor juntamente com outros nomes como Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz, traz em suas obras uma forte mensagem de denunciação sobre a realidade social, cultural e econômica do Brasil. A partir desse cenário de desigualdade social que atingia as crianças de rua, Jorge Amado constrói uma narrativa voltada para a denúncia dessas mazelas que constantemente se faziam presentes na sociedade brasileira da primeira metade do século XX.
Em uma das passagens mais delicadas do livro, o autor escreve que além do contexto da fome, da violência, da criminalidade e do desprezo social em que viviam os capitães da areia, eles também precisavam lidar com o terrível medo da doença de “bexiga”. É a epidemia de “alastrim” ou varíola que vai desencadear alguns dos momentos mais dramáticos e sensíveis do romance, pois um dos meninos da turma cai doente e percebe-se totalmente desamparado para enfrentar a situação.
No começo do capítulo em que o autor propõe um debate acerca dessa doença, ele começa falando que:

Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negro cheio de chaga em cima da cama. Então vinham os homens da saúde pública, metiam os doentes num saco, levavam para o lazareto distante. As mulheres ficavam chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam (...) Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto.

Apesar da importância da mensagem da cultura das religiões africanas e afro-brasileiras na passagem, Jorge Amado nos mostra que a epidemia era muito mais cruel com quem não tinha acesso à saúde básica no período para poder tratar da doença de forma adequada. Os que mais padeciam, geralmente, eram pessoas negras e pobres que viviam totalmente a margem da sociedade numa situação de extrema vulnerabilidade social. E os capitães da areia, como aborda o romance, também foram afetados de forma triste por eles fazerem parte desses sujeitos que viviam desassistidos pelo Estado e poder público local, o que contribuiu para a morte de um dos tripulantes da equipe. Uma criança.
Portanto, Jorge Amado, desde os anos de 1930, já escrevia sobre a importância da criação de políticas púbicas para o atendimento das pessoas mais pobres da sociedade. No contexto pandêmico do novo coronavírus no Brasil, Capitães da Areia (1937) assume uma importância ímpar no que diz respeito à mensagem crítica da forma como uma doença pode atingir uma parcela da população que vive em situação de vulnerabilidade. A chegada do vírus escancarou nossas desigualdades sociais, sendo os mais pobres e negros/as os/as que mais sofrem. Tal como nos mostra os escritos do romance de 1937, na cidade da Bahia.

Marlison é estudante do curso Licenciatura em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA) Campus Ananindeua. É membro do Grupo de Pesquisa CNPq  História e Natureza. Atualmente desenvolve pesquisa sobre os temas: História, Literatura e Gênero na Amazônia durante o período Civil Militar.

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