sábado, 5 de março de 2022

História dos animais na Rússia: ursos

Você sabia que o urso não é o símbolo oficial da Rússia? Atualmente, o símbolo oficial da Rússia é uma  águia de duas cabeças  (representada no emblema nacional russo). Pessoas de fora da Rússia passaram a considerar o urso como símbolo da Rússia e ao que tudo indica os russos tiveram que aceitar essa quase imposição. Isso foi tão forte que no na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de 1980 o urso ocupou o centro da festa como o maior símbolo do país. 


Podemos afirmar que na Rússia o urso é um agente histórico. Talvez seja o animal mais venerado desde os tempos antigos. Para os primeiros povos indo-europeus, o urso era na verdade um animal a ser cultuado como um ancestral da coletividade. Sabe-se também que durante vários séculos na Idade Média, trupes viajaram por toda a Rússia com ursos 'domesticados' que haviam sido treinados para dançar, fazer truques simples e até pedir esmolas. 

Uma das principais “vocações” dos ursos em fins da Idade Média e início da Era Moderna foi a de executar vítimas humanas em uma arena como predador. Esse tipo de execução já vinha sendo praticado desde os tempos antigos, mas foi sob Ivan, o Terrível, no século 16, que as execuções com ursos se tornaram populares. Muitas vezes os ursos eram usados ​​indiretamente no processo de execução: um condenado era costurado em uma pele de urso e, em seguida, cães eram colocados sobre ele, rasgando a pele do urso junto com o condenado dentro.


Em 1526, o diplomata austríaco Siegmund von Herberstein escreveu que durante o inverno na Rússia "os ursos, levados pela fome, deixaram os bosques, correram pelas aldeias vizinhas e invadiram as casas; ao vê-los, os aldeões fugiram de suas casas e morreu de frio, uma morte lamentável." Esse relato impressionou muitos viajantes italianos, poloneses, britânicos, alemães e holandeses que passaram pela Rússia ao longo dos século XV e XVI. 

A história dos ursos na Rússia nos permite conhecer dinâmicas daquela sociedade humana pouco explorada pela historiografia, como a circulação das trupes e as apresentações de aspecto quase circense pelas cidade daquela nação. A relação entre humanos e animais também revela a domesticação de espécies selvagens assim como a utilização das bestas feras para a violência, entretenimento e execução de pena de morte. Por fim, garante-nos conhecer o processo de transformação da figura do urso como mito para a nação russa. A história dos animais, portanto, amplia de forma considerável nossa compreensão sobre a história. 

Fontes: Russia Beyond

BRUNNER, Bernd. Bears: a brief history. Yale University Press, 2007.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

História dos animais na Ucrânia

Na região que hoje conhecemos como Ucrânia, foi encontrado um sítio arqueológico uma casa construída com ossos de mamute. Os estudiosos explicam que isso aconteceu pelo fato de que essa área não contava com árvores apropriadas para essa finalidade. Também fora encontrando adornos feitos com ossos de mamute, evidenciando a importância desse grande animal não apenas para a alimentação de outras espécies. 


Umas das mais importantes peças do acervo do Museu Histórico dos Tesouros da Ucrânia revelam os animais ocupando um papel central no imaginário das sociedades antigas que habitaram a região pelos idos do século IV A.C.  Trata-se do Peitoral Dourado de Tovsta Mohyla, um antigo tesouro descoberto em um cemitério de Tovsta Mohyla em 1971 pelo arqueólogo ucraniano Boris Mozolevski. Animais de várias espécies podem ser observados como figuras que inspiraram esse adorno - alguns até tomando formas mágicas, como os cavalos alados. 


Outra relação entre humanos e animais na história da Ucrânia é a domesticação de cavalos. É provável que nessa região os primeiros cavalos tenham sido domesticados por humanos. Novas pesquisas indicam que os cavalos domésticos se originaram nas estepes da Ucrânia moderna, misturando-se com espécies selvagens locais à medida que se espalham pela Europa e Ásia. A pesquisa foi publicada em 07 de maio, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences .

Por várias décadas, os cientistas ficaram intrigados com a origem dos cavalos domesticados. Com base em evidências arqueológicas, há muito se pensava que a domesticação do cavalo se originou na parte ocidental da estepe euro-asiática (Ucrânia, sudoeste da Rússia e oeste do Cazaquistão); no entanto, uma única origem em uma área geograficamente restrita apareceu em desacordo com o grande número de linhagens femininas no pool genético do cavalo doméstico, comumente pensado para refletir múltiplos "eventos" de domesticação em uma ampla área geográfica.


A fim de resolver a história intrigante do cavalo doméstico, cientistas da Universidade de Cambridge usaram um banco de dados genético de mais de 300 cavalos encontrados em toda a estepe euro-asiática. 

A pesquisa mostra que o ancestral selvagem extinto dos cavalos domésticos, Equus ferus , expandiu-se para fora do leste da Ásia há aproximadamente 160.000 anos. Eles também foram capazes de demonstrar que o Equus ferus foi domesticado na estepe eurasiana ocidental e que os rebanhos eram repetidamente reabastecidos com cavalos selvagens à medida que se espalhavam pela Eurásia.

Vera Warmuth, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, disse: "Nossa pesquisa mostra claramente que a população fundadora original de cavalos domésticos foi estabelecida na estepe eurasiana ocidental, uma área onde foram encontradas as primeiras evidências arqueológicas de cavalos domesticados. A disseminação da domesticação do cavalo diferiu de muitas outras espécies de animais domésticos, pois os rebanhos em expansão foram aumentados com cavalos selvagens locais em uma escala sem precedentes. Se esses eventos de repovoamento envolveram principalmente éguas selvagens, podemos explicar o grande número de linhagens femininas no pool genético de cavalos domésticos sem ter que invocar múltiplas origens de domesticação."

Os pesquisadores fornecem a primeira evidência genética para uma origem de domesticação geograficamente restrita na estepe euro-asiática, como sugerido pela arqueologia, e mostram que a enorme diversidade feminina é o resultado de introduções posteriores de éguas selvagens locais em rebanhos domésticos, conciliando assim evidências que anteriormente deram origem a cenários conflitantes.

A pesquisa foi financiada pelo BBSRC, Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e pelo Leverhulme Trust.

Dessa maneira, a história dos animais não humanos amplia nossa compreensão sobre a história das sociedades humanas. 

Fonte: Science Daily

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Natureza na Semana de 22: a capa Modernista de Di Cavalcanti

Seria a Natureza o centro da Semana de Arte Moderna de 1922? Pelo menos no cartaz de apresentação desse movimento, sim.  A capa do programa da Semana de Arte Moderna de 22 é de autoria do pintor Di Cavalcanti e está sob a guarda da Universidade de São Paulo, no Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros. Nela uma árvore está no centro e representa as aspirações de artistas que viriam a ser muito frutíferas e transformariam a cultura paulista.

O arbusto seco não aparenta ser novo, mas uma planta com suas raízes expostas que resistiu ao solo árido e mesmo assim apresenta brotos vermelhos que combinam com a primeira e última letra da frase que está acima. Seria, portanto, a cultura nacional e a cidade de São Paulo solos áridos, o movimento modernista essa árvore resistente e a Semana de 22 seus brotos e folhas vermelhos como o sangue que corre em nossas veias?

Vale lembrarmos da provocação de Nicolau Sevecenko (2003, p. 29) questionando como pode uma árvore e seus frutos não dependerem "das características do solo, da natureza do clima e das condições ambientais”? Isso nos leva a pensar que a presença da planta revela um processo dialético entre a nova proposta artística dos modernistas e a cultura que buscavam superar. Seriam, portanto, frutos desse contexto em que renascem.

Por último, a capa do programa da Semana de 22 nos lembra como a Natureza é o principal elemento do mundo material no qual se baseiam os símbolos criados pelos humanos, em especial os artistas. Neles podem haver mais significado que as próprias palavras, por isso, nós devemos ter a máxima atenção com a Natureza, lendo aquilo que não está escrito. 

Referência
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

Edital PROFCIAMB: prorrogação

Foram prorrogadas até 28 de fevereiro de 2022 as inscrições para o processo seletivo de candidatas(os) ao curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (PROFCIAMB), do Instituto de Geociências (IG/UFPA). São oferecidas 16 vagas: duas vagas estão destinadas para Ação Afirmativa (AAf) - quilombolas e indígenas - e quatro, para funcionários da UFPA por meio do Programa de apoio à qualificação de servidores docentes e técnicos administrativos (PADT/PROPESP). Mais informações nos documentos anexos ou pelo site https://www.profciamb.propesp.ufpa.br/index.php/br/