quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O gato na última ceia: símbolos renascentistas da natureza

Domenico Ghirlandaio nasceu em Florença - Itália no ano de 1449. Ali desenvolveu seu talento como pintor renascentista até alcançar grande prestígio entre os maios importantes artistas da época, Botticelli e Filippino Lippi. Seus trabalhos influenciaram toda uma geração de pintores e um de seus aprendizes se tornou muito famoso: Michelangelo. 



Dentre suas muitas obras, Ghirlandaio pintou o afresco 'A ultima ceia' em 1481 para a igreja franciscana de Ognissanti em Florença e outra pintura muito semelhantes com o mesmo tema bíblico para o refeitório da Igreja Dominicana de São Marcos em Florença. A diferença entre os dois afrescos é a seguinte: em uma das pinturas há a presença sutil de um gato. 


Os estudos de história da arte demonstram que durante o período conhecido como Renascença (entre os século XIV e XVI) os gatos simbolizavam  o próprio Satanás - antagonista do Deus dos cristãos segundo os textos bíblicos. Essa associação ganhou força durante os anos da Peste Bubônica quando muitos europeus acreditavam que a doença era causada pelos próprios felinos. As bruxas também foram relacionadas aos gatos, que pareciam incomodar os humanos a partir de seu comportamento naturalmente misterioso. 


É sabido que na Europa, durante a Quaresma, a Igreja Católica incentivou o assassinato e tortura de gatos ao pregar que esses felinos estavam possuídos pelo demônio. Cada vez mais práticas de extermínio de gatos se tornavam comuns na Europa renascentista com rituais de prisão dos felinos, queima de seus corpos em praça pública e até mesmo o arremesso desses pequenos mamíferos do alto de torres. Nesse contexto, o gato de Ghirlandaio na 'Ultima ceia' parece merecer a consideração de protagonista da obra de arte. 

Outros símbolos da natureza

A 'Ultima Ceia' Ghirlandaio também conta com outros elementos da natureza carregados de simbolismo:  os tradicionais pão e vinho representam o corpo e o sangue de Cristo. Os damascos simbolizam o pecado. As cerejas também representam o sangue de Cristo. As nozes são símbolos da Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo. O alface é uma hortaliça com o significado de penitência e as frutas cítricas, especialmente a laranja, são símbolos da vida eterna e apontam para a ideia de Paraíso.

Ao fundo, como em segundo plano do afresco, notamos a presença de  árvores coníferas da família Crupressaceaehá, comumente chamadas de  ciprestes como símbolos de redenção. O céu é cortado por muitos pássaros, eles também se apresentam como símbolos. Esse é o caso gavião atacando um pato. Os patos representavam a perversidade e as alegrias terrenas que atrapalhariam a consagração dos humanos a Deus. As codornizes e estorninho-malhado são símbolos penitência. 

Por fim, outra ave que chama atenção está na janela da direita e se trata de um pavão que a tradição dizia ter uma carne que nunca estragava e representava a ressurreição e imortalidade. O pavão também é símbolo de pureza e incorruptibilidade, sendo motivo de decoração em muitos mausoléus cristão no período da renascença. 

Para saber mais:
TORREY, E. Fuller; TORREY, E. Fuller. The Rise of Cats and Madness: I. The Renaissance. Parasites, Pussycats and Psychosis: The Unknown Dangers of Human Toxoplasmosis, p. 29-41, 2022.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Búfalos no carnaval: história ambiental na passarela do samba

A escola de samba Paraíso do Tuiuti, com sede no bairro carioca de São Cristóvão, escolheu como enredo 2023 a história da introdução do búfalo (Bubalus bulalis)  na Ilha de Marajó - extremo Norte do Estado do Pará. O desfile ocorrido na noite de segunda-feira além de muito bem avaliado pela crítica pela profusão de cores, o diálogo com a rica cultura paraense e um samba enredo contagiante também foi uma aula de história ambiental. 


A escola fez do búfalo o protagonista de seu enredo. Segundo o carnavalesco João Vítor Araújo, a introdução do animal teria acontecido no século XIX, quando ocorriam fluxos comerciais de especiarias por meio de navios carregados de temperos que partiam da Índia. Os búfalos teriam sido embarcados na Índia com destino à Guiana Francesa. Ao passar pela costa brasileira, uma tempestade levou o navio a naufragar depois de bater em uma pedra. Todos os tripulantes teriam se afogado e somente os búfalos sobreviveram. Conseguiram chegar nadando até ao arquipélago do Marajó, onde tiveram sucesso em sua adaptação. 

Assim como outras espécies animais e vegetais, o Pará foi a porta de entrada dos búfalos no Brasil. Relatos informam uma história distinta daquela apresentada pela Tuiuti. Em fins do século XIX, colonizadores ingleses e franceses que circulavam pela costa brasileira com destino a Guiana Francesa e o Caribe teriam desembarcado búfalos no Marajó de maneira proposital. 

Os registros da Associação Brasileira de Criadores de Búfalo (ABCB) indicam que em 1902 o sr. Bertino Lobato de Miranda importou búfalos de Itália para sua Fazenda São Joaquim. Outro documento aponta para uma segunda importação, desta vez em 1906 realizada pelo advogado e folclorista Vicente Chermont de Miranda para sua Fazenda Dunas e Ribanceira. 

As contradições históricas e eventuais equívocos do enredo não desmerecem de forma alguma a aula de história ambiental dada pelo Paraíso de Tuiuti. Além de nos remeter a primeira grande batalha ocorrida na Guerra do Paraguai, a palavra Tuiuti curiosamente em tupi-guarani significa 'lamaçal', 'pântano'e/ou 'variedade de ave branca'. Podemos estabelecer alguma relação com o búfalo que habita locais alagadiços, pantanosos e tem seu dorso visitado por aves brancas. 

Ao escolher o búfalo como protagonista da história, a Tuiuti foge de uma história que privilegia os seres humanos e reafirma o antropocentrismo. O enredo amplia nossa compreensão sobre o passado ao pensar sobre a circulação e aclimatação de animais em diferentes partes do planeta. Também aproxima a fauna asiática da natureza amazônica, refletindo sobre múltiplos intercâmbios (isso está presente em todas as alas do desfile). Conhecemos, portanto, o passado brasileiro a partir de um ângulo novo e mais interessante para o grande público. Uma oportunidade de escrever uma história atrativa que conecta mistérios indígenas, economia pecuária eurodescendente e cultura musical afro-indígena. 

A partir do búfalo como personagem central, desenrola-se uma história potente. Assim é a história ambiental, uma proposta que amplia nossa compreensão sobre o passado, revelando novas perspectivas sobre temas importantes. Assim é a história dos animais, uma maneira de incluir novos personagens no centro do debate, questionar os prejuízos dos estudos antropocêntricos sem deixar de lado as questões das sociedades humanas. A escola Paraíso do Tuiuti descobriu essa potencialidade, outras escolas ainda não.  

Fontes

SANTOS, Jannes Mendonça dos. Atualidades na produção de búfalos na ilha do Marajó- Pará. Orientador: Sebastião Tavares Rolim Filho. 2020. 19 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Zootecnia) – Universidade Federal Rural da Amazônia, Campus Belém, PA, 2020.

MINERVINO, Antonio Humberto Hamad et al. Bubalus bubalis: a short story. Frontiers in veterinary science, v. 7, p. 570413, 2020.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Profit, a environmental history by Mark Stoll

Profit
Mark Stoll Polity (2023)

Um smartphone é uma “caixa de Pandora dos males ambientais”, escreve Mark Stoll. O dispositivo simboliza tanto os benefícios quanto os fardos do capitalismo, ele argumenta em sua história de lucro desde os tempos antigos até o presente, a primeira de um historiador ambiental. Com conhecimento, habilidade e histórias de inventores, empreendedores e conservacionistas, ele traça desenvolvimentos em tecnologia, transporte, energia, comunicação, comércio e finanças. Não podemos viver com capitalismo ou sem ele, diz ele, então devemos trabalhar para “melhorar seus piores efeitos”.

Profit , diz o autor e historiador ambiental Mark Stoll, é “uma história do capitalismo que busca explicar como o capitalismo mudou o mundo natural e como o meio ambiente moldou o capitalismo”. É um livro abrangente que leva os leitores desde a antiguidade até o consumismo global impulsionado pela Internet de hoje, explorando as consequências ambientais ao longo do caminho.

O capitalismo emergiu em uma série de estágios, desde os mercadores gregos e romanos, através das eras do império, do capitalismo de plantação e da Revolução Industrial. Cada um deles tinha tecnologias e ideias diferentes, como o desenvolvimento de técnicas de contabilidade mais sofisticadas ou moedas comerciais.

Cada etapa teve um impacto ambiental também. Isso é algo que tende a ser discutido a partir da era industrial, com foco na poluição ou nas mudanças climáticas. Sempre houve um custo, porém, em florestas perdidas ou solos esgotados. A cada avanço da economia, aumenta o potencial de danos ao meio ambiente. Cada vez é uma aceleração de um padrão existente: “lucramos e sempre lucramos às custas da natureza”.

É interessante ver alguns exemplos iniciais de problemas que nos preocupam hoje. O desperdício de baterias de carros elétricos, por exemplo, ecoa um problema anterior com a poluição das baterias da rede telegráfica americana. Os problemas ambientais também mudaram, e diferentes lugares ganharam destaque e depois desapareceram à medida que os recursos se esgotavam ou a produção industrial mudava. Swansea já foi o centro global da produção de cobre, com toda a poluição que isso acarretava. As mudanças climáticas também tiveram um efeito – períodos de frio incomum devastaram populações no norte da Europa, mas beneficiaram agricultores no Oriente Médio.

Ao contar a história, Stoll pega alguns personagens-chave e tece a história em torno de suas histórias de vida. Andrew Carnegie serve como um estudo de caso na produção de aço e nas mudanças que ela permitiu. Jeff Bezos nos leva ao capitalismo de consumo.

Como estou mais familiarizado com os estágios posteriores da história, aprendi mais com os primeiros capítulos. É fascinante ver como o Império Romano precisava de 'zonas de sacrifício', poluídas em outros lugares ao redor de minas e operações de fundição. Ou como o desmatamento foi tão generalizado que afetou potencialmente os padrões de chuva, levando a mudanças regionais no clima. À medida que o capitalismo progrediu e se expandiu, mais e mais lugares ao redor do mundo foram atraídos para essa dinâmica, mas ela sempre esteve lá. E para nos tirar da crise climática e de biodiversidade em que estamos hoje, precisamos de formas de indústria e comércio que sejam regenerativas em vez de extrativas.

Claro, a história do capitalismo não é um conto de infortúnio incessante, e seria um erro descrever apenas os aspectos negativos. Como Stoll escreve na introdução, há dois aspectos na palavra 'lucro'. Há a sugestão de excedente e extração, algo levado. Lucrar com alguma coisa é também se beneficiar dela, e o título do livro foi escolhido para refletir ambos os significados. O desafio para o futuro é manter os benefícios, eliminando e restaurando os danos que o capitalismo tende a deixar para trás.

Resenha escrita por Jeremy Williams publicada no site The Earthbound.report

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

A History of the Wind, por Alain Corbin


A History of the Wind
Alain Corbin (transl. William Peniston) Polity (2022)

Por milênios, pouco se sabia sobre a ciência do vento. Aristóteles o via como um fluido elementar, ao lado da água, da terra e do fogo. No final do século XVIII, a composição química do ar foi revelada; posteriormente veio o desenvolvimento da meteorologia através do mapeamento das correntes de ar globais e dos conceitos de troposfera, estratosfera e corrente de jato. Tudo isso faz parte da breve história de Alain Corbin, mas ele se concentra na reação de artistas, escritores e viajantes desde a Grécia antiga ao “enigma indecifrável” do vento.

Todos conhecem o toque do vento, sua presença, sua força. Às vezes ele ruge e uiva, outras vezes ouvimos seus suspiros melancólicos e sentimos suas carícias calmantes. Desde a antiguidade, os humanos testemunham o vento e contam com ele para navegar nos mares. E, no entanto, apesar de sua presença no cerne da experiência humana, o vento evitou o escrutínio em nossas crônicas do passado.

Alain Corbin mostra como, antes do século XIX, o ruidoso vazio do vento era experimentado e descrito apenas de acordo com as sensações que provocava. As imagens do vento aparecem com destaque na literatura, desde os épicos gregos antigos, passando pelo Renascimento e o romantismo até a era moderna, mas pouco se sabia sobre de onde vinha o vento e para onde ia. Foi somente no final do século XVIII, com a descoberta da composição do ar, que os cientistas começaram a entender a natureza do vento e suas trajetórias. A partir daí, nossa compreensão do vento foi moldada pela meteorologia, que mapeou os fluxos de ventos e correntes ao redor do globo. Mas enquanto a ciência nos permitiu entender o vento e, em alguns aspectos, para aproveitá-lo, o vento não perdeu nada de sua força misteriosa. Ele ainda tem o poder de destruir, e na presença etérea do vento ainda podemos sentir sua conexão com a criação e a morte.