quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Os muitos rios do Rio de Janeiro: transformações e interações entre dinâmicas sociais e sistemas fluviais na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)


Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pósgraduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

Autor: Bruno Capilé 

Resumo

A partir de uma perspectiva interdisciplinar e multitemática com a história como principal eixo, esta tese analisa como os rios urbanos participaram da história da cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. A sociedade urbana interagiu de maneira heterogênea com a diversidade fluvial composta de nascentes, cachoeiras, várzeas, vales, foz, ou, nos termos desta tese, alto, médio e baixo curso dos rios. No alto curso, o Estado imperial se apropriou do ambiente florestal legitimado pela necessidade hídrica para a cidade. Reflorestamentos, estradas, desvios de rios, e outras modificações domesticaram a paisagem florestal para o abastecimento e outras atividades, como passeios, banhos, descanso para cura. No médio curso, os subúrbios também foram idealizados, transformados e incorporados ao território urbano. A persistente ruralidade foi reprimida e inviabilizada pelas ideias da medicina social. Estas teorias foram a base para o planejamento urbano dos engenheiros do Império, e concebiam os corpos de águas estagnadas como principais focos de doenças. Na sequência, no baixo curso, ocorreram o aterro e a drenagem de ambientes biofísicos originais que resistiam ao crescimento urbano, como foi o caso do manguezal de São Diogo e outras áreas alagadas. A resiliência das bacias hídricas podia ser percebida na força das águas dos rios, em caso de inundações, pontes derrubadas, margens deslizadas. Na interface entre a sociedade urbana e os ambientes fluviais, outras espécies interatuaram no desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro: cavalos, burros, agrião, árvores, porcos, mosquitos e muitos outros. Esta tese conta uma história ambiental da cidade do Rio de Janeiro que desloca para o centro da narrativa estes vários agentes não-humanos conectados pelos muitos rios do Rio de Janeiro.

Palavras-chave: história do Rio de Janeiro – Império, história ambiental urbana, história; urbana, rios urbanos, natureza urbana.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Belém e os urubus: entre sobressaltos e gratidão, as representações do urubu em favor de políticas de higienização da cidade (1870-1883)

por Wendell P. Machado Cordovil*

Urubu sobrevoando
Eu logo pude prever
Parece que vai chover
Parece que vai chover[i]

A cidade de Belém, capital do Estado do Pará, é o segundo município mais populoso da região Norte do Brasil e o primeiro do Estado- segundo dados do IBGE de 2017. Com uma história que remonta desde o período colonial, Belém viveu diferentes continuidades e rupturas para a construção do que hoje é a cidade. Nesses processos históricos, as relações dos moradores da cidade não são construídas exclusivamente com humanos. Para além desses personagens a história da região também é construída com os rios e lagos, com os alimentos importados e exportados, com as árvores e as florestas, e também com animais não humanos.

Um dos personagens não humanos que pode ser observado ao longo dos processos históricos em Belém é o urubu. Essa ave muitas vezes está associada ao agouro – não tanto quanto a coruja branca – mas também é bastante utilizado como ferramenta meteorológica. O voo baixo do urubu de cabeça preta é realizado quando esse encontra correntes de ar ascendente, indício que o ar quente está subindo e consequentemente as chuvas podem iniciar.

Nos dias atuais a presença do urubu pela cidade é algo natural aos olhos. Tanto daqueles que frequentam o Ver-o-Peso para almoçar, dos pescadores que atracam seus barcos no cais, ou mesmo os que somente passam de ônibus pelo local. Visão comum também em vários pontos da cidade em que se acumula lixo descartado de forma errada, ou mesmo na Praça Batista Campus descansando ao lado das garças. O urubu de cabeça preta, “apelidado” pelos cientistas de Coragyps Atratus, é uma figura emblemática no convívio cotidiano da cidade de Belém. Repugnados por alguns que visitam a cidade a passeio, compreendidos por poucos, e ignorados por outros, os urubus fazem parte das relações rotineiras em Belém, quer queiram os humanos quer não.

Esse voador sujeito emblemático não é realidade somente atual na paisagem e vivência da cidade. Diversas representações feitas de Belém apresentam essa ave como um dos personagens locais.

Um exemplo disso é a música que iniciou esse texto. Composição da cantora regional Dona Onete, a música retrata justamente a presença desse animal na realidade do dia a dia em Belém. Na música, retratado como o malandro namorado da garça, o compadre urubu foi passear para a região do Marajó. Na ilha, ele poderia comer de tudo, mas vivia triste. Quando questionado por outro urubu sobre o motivo para a tristeza, respondeu que estava com saudade de sua branca – sua namorada garça – e também do Ver-o-Peso, além da “sacanagem”. Ainda acrescenta que em Belém ele é um “pop star” e fica bem nas fotos, entrevistas e reportagens. Tudo isso “No meio do pitiú”.

A representação do urubu não se atém somente na música regional atual, a significação da figura dessa ave também aparece em representações da cidade em séculos anteriores. No século XIX, por exemplo, o pintor Joseph Léon Righini se fixa no Brasil em 1857 e desenha um álbum com doze litografias do Pará. Intitulado “Panorama do Pará em Doze Vistas”, foi publicado em 1967. Nessas vistas do pintor sobre o Pará, mais especificamente Belém, um dos personagens que bastante aparece é o urubu. Nos desenhos, o animal observa do céu as pessoas, edifícios e vegetação representadas por Righini.

Estrada do Arsenal da Marinha. Desenho de Joseph Léon Righini.
Fonte: http://www.ufpa.br/cma/imagenscma.html

A imagem acima é um exemplo onde é possível perceber a presença das aves sobrevoando no céu da cidade de Belém.  No século XIX essa ave também já era habitual para os moradores. Em alguns momentos era tida como problema, em outros como a salvação. Na lógica de higienização de Belém no século XIX, como é comentado por Tunai Almeida (2013), já se apresentava a preocupação do Conselho Municipal com o descarte incorreto de cadáveres de animais ou qualquer tipo de carne deteriorada em locais que não fossem os estipulados pela municipalidade. Entretanto, como também é comentado por Tunai, o enterro de animais acontecia bastante em locais desapropriados, algo que incomodava moradores que posteriormente realizavam denúncias. Essa situação de enterro em locais não próprios já se mostrava um incômodo, mas e quando o animal não possuía alguém que se dispusesse de lhe cavar uma devida cova? Suas carnes ficavam expostas entre as ruas de Belém, e essa era uma reclamação que, pelo que as fontes indicam, se fazia bastante presente no período. Com a negligência da gestão local sobre esses casos, a figura que aparece como salvação para a higiene é o urubu.

 Com uma investigação nos jornais de 1870 à 1899, foi possível perceber um pouco dessa preocupação local dos moradores sobre os animais mortos que apareciam em diferentes ruas de Belém. Incômodo que era acentuado pela falta de reação da gestão da cidade em tentar solucionar esse problema.

Em uma notícia do jornal DIÁRIO DE BELÉM, de 28 de fevereiro de 1871, é feito uma crítica a câmara municipal “do sr. dr. Malcher”, de Belém, sobre “um immenso gato a desfazer-se lentamente em podridão” na rua Formosa, entre as Travessas S. Matheus e do Passinho. Segundo o jornal, desde o dia 22 do mês corrente qualquer um que passasse pela rua teria que “recuar e arripiar carreira, ou tapar o nariz com um lenço”, pois o animal, já em avançado estado de decomposição, exalava um odor muito incômodo. Acentuando a crítica o jornal comenta que o próprio sr. dr. Malcher atolou as patas de seu cavalo – chamado pelo jornal de rocinante – nas entranhas “putrefactas” do animal. A notícia acrescenta que o viram cuspir muito, mas mesmo dessa forma ele não tomou atitude e o gato continuou no mesmo lugar.

No fim da notícia, após o jornal comentar que uma chuva levou o cadáver para a travessa S. Matheus, a figura do urubu não somente é citada como também exaltada em contradição aos agentes públicos. O jornal afirma que “A caridade dos urubús é finalmente que acaba de socorrer-nos, pois que lhe estava fazendo o enterro”. Nessa notícia é nítida a crítica do jornal sobre a gestão de Malcher. Coloca-o como totalmente indiferente aos problemas de higiene da cidade, onde nem mesmo ao atolar seu cavalo e cuspir de nojo ao ver o problema toma algum tipo de atitude.
Em uma notícia posterior também no Diário de Belém, de 07 de março de 1871, rememora o caso do cadáver do gato que incomodou moradores com “o cheiro de podridão”. Mas nesse caso tem o objetivo de informar outro cadáver de animal em estado de decomposição, bem maior que o anterior – como é dito pelo próprio jornal. Ao invés de um gato o que se encontrava há dois ou três dias na rua S. Vicente era um cavalo morto. Entre as travessas da Gloria e da Princeza estava o cavalo se desfazendo “como se desfazia o gato”, e exalando “o necessário fedor”.

Em seguida o jornal afirma que é atribuição da câmara a responsabilidade sobre a limpeza das ruas. Comenta que a câmara tem seus fiscais e esses seriam os responsáveis por “correr as ruas” e executar com seus deveres. Logo após isso o jornal afirma que assim como o gato não encontrou um fiscal que o removesse o cavalo também não, e segundo a notícia “ali há de acabar por confundir-se com pó”.
Ainda comenta que os urubus conseguiam livrar a cidade do cadáver do gato, porém por conta de o cavalo ser um animal de porte maior e com fibras rijas, só Deus sabia como se faria a retirada do animal. Solicita também ao sr. dr. Malcher, “que anda sempre á cavallo”, que olhe para essas coisas. Além de pedir que ele abra os olhos “á sua gente e aos seus fiscaes”, e “chame-os ao cumprimento de seus deveres”, para que dessa forma “procure não desmentir esses elogios bombasticos que diariamente lhe tece o orgão de seu partido”.  

Ao fim da notícia ainda alfineta-o dizendo que “O Tira-Dentes disse ha poucos dias que os liberaes são myopes” e pediu que Malcher “Prove-lhe agora v. s., sr. presidente da camara, que o chefe desse partido ainda encherga um cavallo morto”.

Novamente nessa matéria é nítida a crítica para a gestão de Malcher sobre a questão de higiene da cidade de Belém. Aprofunda o problema utilizando a representação dos urubus ao dizer que nesse caso nem mesmo eles – que outrora apareceram como os únicos competentes – conseguiriam livrar a cidade do cadáver do cavalo.

Outra representação dos urubus sendo utilizada como crítica contra os problemas de higiene da cidade pode ser observada no Jornal LUZ DA VERDADE, de 23 de janeiro de 1873. Em uma crítica contra “A nova camarilha” que “não encontrado dinheiro nos cofres da municipalidade” começou a “agarrar quanto carneiro, cabras, porcos, cães, galinhas, patos, perús, etc., há nesta cidade”. Logo após isso o jornal comenta que esses mesmos não dão atenção para outro animal, afirma que “Esqueceram-se dos urubus” e coloca-os como “ave indecente que actualmente traz o respeitavel publico a sobressaltos ao passar na travessa S. Matheus e estrada do Arsenal, onde os nobres auxiliares dos srs. fiscaes teem morada”. Na notícia é possível analisar que a figura do urubu é utilizada no jornal para expor os problemas da política de higienização da cidade, onde nem mesmo próximo a morada dos auxiliares do fiscaes – que deveriam cumprir seus deveres sendo um desses a limpeza da cidade – as aves deixam de se acumular e assustam os que passam.

Já em 24 de fevereiro de 1873, no SANTO OFFICIO, o Tribunal do Santo Officio fazia algumas solicitações “Á vereação do municipio”. Também faz a reclamação e o pedido para que atentem as faltas que a câmara estava cometendo, como não se importar com a conservação das estradas e ruas nem a limpeza da cidade. Em seguida comenta que sobre a limpeza da cidade ainda possuíam muito a falar já que “é rara a rua onde não se encontre um animal morto”. Logo após enfatiza que “se não fosse o zelo dos urubús fácil é prever-se os incalculaveis males que dahi resultam aos munícipes, máxime na quadra epidemica que se atravessa”.

Novamente aqui os urubus aparecem como “salvadores” da cidade. A representação deles é utilizada para cobrar atitudes e expor a negligência da gestão de Belém sobre a limpeza das ruas.
Em março de 1873, novamente o SANTO OFFICIO cobra atitudes da câmara municipal e questiona se ela “está atacada de lethargia ou paralysia”. Reclama as promessas que eram feitas para serem executadas logo após o assumir da administração do município. A principal preocupação reclamada à câmara é sobre a limpeza das ruas que “estão intransitaveis”. Ainda acrescenta que os fiscais são pagos para realizar um trabalho que só é realmente efetivado pelos urubus. Afirma que os urubus é que “cuidam com muito zelo da limpeza da cidade”. É comentado dos serviços “relevantissimos” que os urubus haviam prestado à cidade, e que o único privilégio que a lei municipal fornece para esses é uma garantia à vida, “e seria uma ingratidão matar-se esses desinteressados agentes municipaes, que velam pela boa limpeza da cidade”. Termina acrescentando que “Este Santo Tribunal pede a camara duas cousas: que zele pela vida dos urubús, e que tome qualquer antídoto contra seu ataque de incuria”.

Os urubus são usados pelo SANTO OFFICIO para criticar a gestão municipal para com a limpeza de Belém, onde são até mesmo considerados mais importantes que os agentes da câmara. Ao pedir o zelo pela vida dessas aves, e que a câmara cure-se de seu desleixo, o pedido critica a gestão defendendo que os urubus são os principais responsáveis pela higiene da cidade em quanto os verdadeiros agentes municipais encontram-se adoecidos.

Outro caso bem interessante é um que se encontra no DIÁRIO DE BELÉM, de 28 de fevereiro de 1883. O jornal expôs um suposto pedido de um de seus assinantes. Em forma de poema o tal assinante pedia:

                             
Valha-nos Deus e o urubu,
N’esta quadra de agonia
Já que quem póde não quer,
Livrar-nos da asphyxia.

Na rua de Santo Antônio,
Ha tantos dias está,
Um cachorro apodrecido
Que de odor nos matará.

E a nossa edilidade
Que muros manda fazer,
Deixa ali o pobre bicho
Aos urubus p’ra comer.

Há quantos dias que passo,
As mais negras inclemencias,
Não sahio á rua, não posso,
Já padeço de esquenencias.

Decididamente morro
E comigo toda a gente,
Não ha fiscal nessa terra
Todos dormem docemente...

No poema a figura do urubu aparece novamente como central para a limpeza da cidade. Já que os agentes municipais não faziam nada, quem fazia algo era Deus e o urubu. O odor do animal morto, dessa vez um cachorro, aparece de novo causando inquietação e incômodo. O eu lírico do poema comenta ainda que já nem mesmo pode sair de casa, pois se encontra doente e com certeza vai morrer, assim como todos da cidade, isso por causa de o lugar não possuir nenhum fiscal para tomar conta da limpeza das ruas. Todos os agentes públicos dormem em quanto os populares rogam a Deus e ao urubu pela manutenção da higiene de Belém.

Outros casos em jornais também mostram a preocupação com a limpeza da cidade e reclamação com o descaso da gestão utilizando a representação do urubu para realizar a crítica social, mas me atenho somente nesses para mostrar um pouco sobre essa dinâmica do período. A presença do urubu permanece até hoje na cidade de Belém, as percepções e representações sobre ele algumas vezes se assemelham a essas aqui apresentadas. Mas o que parece claro é que como agente ambiental o urubu foi de muita utilidade para a sociedade belenense do século XIX, e em alguns momentos recebia os créditos por isso, servindo também como pilar de crítica contra a câmara municipal do período. Sorte da humanidade de Belém no século XIX pela resistência do organismo dos urubus contra as bactérias e toxinas existentes na carne de animais em decomposição. Se os agentes municipais não agiam, sobrava para esses personagens históricos e agentes ambientais.

*Wendell P. Machado Cordovil é graduando de licenciatura em história pela Universidade Federal do Pará - Campus Ananindeua, bolsista PIBIC do projeto "História e Educação Ambiental nas escolas de Ananindeua", coordenado pelo Prof. Dr. Wesley Oliveira Kettle.

Referências:

ALMEIDA, Tunai Rehm Costa de. Belém, uma história Ambiental: Representações da Natureza na capital paraense (1897 a 1902). In: XXVII Simpósio Nacional de história: Conhecimento histórico e diálogo social. Natal (RN). 2013. Disponível em: http://snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364772276_ARQUIVO_historiaambiental-anpuh.pdf Acesso em: 11/07/2018.

SILVEIRA, Flávio Leonel Abreu da; SILVA, Matheus Henrique Pereira da. Urubus-de-cabeça-preta (coragyps atratus), garças-brancas-grandes (ardea alba) e peixeiros na pedra do peixe: experiências conviviais interespecíficas na cidade. ILUMINURAS, v. 18, n. 45.

SILVEIRA, L. S. Um olhar sobre os Urubus. Cães & Cia, v. 383, p. 54-55, 2012.
Todos os jornais citados no texto foram acessados a partir do site da Biblioteca Nacional em sua hemeroteca digital.

[i] Trecho da música “No Meio do Pitiú” de Dona Onete. Pitiú é uma expressão comumente utilizada para se referir a odores de peixes, mas também pode se referir a outros maus cheiros.

Este texto foi publicado no blog https://escoladosananins.blogspot.com. Agradeço ao autor e aos editores da referida página.

domingo, 22 de julho de 2018

História ambiental e ensino: dossiê LHISTE

SUMÁRIO 

Uma voz que clama no deserto: minhas experiências de educação ambiental na formação inicial de historiadores
Ely Bergo de Carvalho

O uso de iconografias de paisagem para o ensino da História Ambiental: um diálogo com a História da Arte
Ana Marcela França

A Perspectiva ambiental e o Ensino de História na Amazônia: Experiências no município de Ananindeua
Wesley Kettle

A primeira aula de História Ambiental na UFRGS: Uma experiência no Ensino de História (2012-2013)
Antônio João Dias Prestes, Elenita Malta Pereira

Historiografia social da Amazônia e história ambiental: Um breve balanço
Carla Oliveira de Lima

Uma breve História da Educação Ambiental na Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, RS, Brasil
Fabiano Quadros Rückert

Da crise ambiental ao despertar da consciência ecológica: Diálogos entre a História Ambiental e a Educação Ambiental
Bread Soares Estevam

Os cursos de graduação em história das universidades estaduais do Paraná e a política estadual de Educação Ambiental
Jó Klanovicz

O ruído infame das ecologias menores: o grindcore e as relações entre meio ambiente e educação
Rodrigo Barchi

A Ecocrítica e a Educação Ambiental no Ensino de História: uma proposta de análise a partir da revista Globo Rural
Denis Henrique Fiuza


PAINEL
Desastre da Samarco/Vale/BHP: uma tragédia em diferentes atos
Haruf Salmen Espindola, Cláudio Bueno Guerra

Desastres Ambientais e o Ensino da História
Marcos Aurélio Espindola

ENTREVISTAS
Entrevista com Prof. Dr. Paulo Henrique Martinez (UNESP)
Elenita Malta Pereira

Entrevista com Prof. Dr. Marcos Reigota (UNISO)
Elenita Malta Pereira

RESENHAS
Livro História Ambiental e Migrações: diálogos
Débora Nunes de Sá

Acesse clicando aqui

domingo, 24 de junho de 2018

Tietê, o rio que a cidade perdeu. São Paulo, 1890-1940

No primeiro meio século de regime republicano, os paulistanos de nascimento ou por adoção, assistiram à transformação de um rio cheio de vida, com peixes abundantes em suas águas, pássaros e animais em suas várzeas, em um canal estreito e sujo, dominado pelos interesses da industrialização. Este livro recupera, com argúcia ecológica e competência de historiador, a relação dos paulistanos que viviam deste e para este rio, o Tietê, que a cidade perdeu. Historiador sensível às questões do poder e das vicissitudes do ecossistema do rio Tietê, Janes Jorge revive neste livro o papel que tiveram a destruição das matas ciliares e a valorização das várzeas sobre o desaparecimento gradativo dos pássaros, dos peixes, da caça, que era o sustento dos moradores pobres. Brinda-nos com a história social dos ribeirinhos, dos grileiros das várzeas do Tietê, dos pequenos canoeiros que pescavam e sobreviviam da lenha e da caça, que foi abundante nas margens do rio até a década de vinte. Crítico e interpretativo, o historiador estabelece um forte elo entre o projeto das elites na urbanização de São Paulo e o povoamento das várzeas por ex-escravos expulsos do centro e, a partir de 1885, por imigrantes italianos e portugueses que sobreviviam da extração e do transporte da areia e da argila. O rio foi sendo dominado pela força dos interesses ferroviários, da industrialização, do esgoto e do lixo, que acompanharam o crescimento demográfico da cidade. O rio foi transformado num canal estreito e sujo, cujas memórias Janes Jorge resgata com argúcia ecológica para nossa leitura prazerosa e inquietante.

A primeira edição, impressa, estava esgotada. Uma segunda edição digital foi publicada por  iniciativa da Secretaria do Meio Ambiente da Cidade de São Paulo. Faça o download clicando aqui.

Sobre o autor

Prof. Dr. Janes Jorge - Professor do curso de graduação e do programa de pós-graduação do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É pesquisador na área de História Ambiental. Autor do livro: “Tietê, o rio que São Paulo perdeu – São Paulo, 1890 – 1940”. Membro do Conselho Consultivo da Associação Nacional de História, Seção São Paulo (2014-2016 e 2016-2018), e coordenador do Grupo de Trabalho “História Ambiental da ANPUH/SP” (2014-2016 e 2016-2018). Vice Diretor da área Acadêmica do Campus Guarulhos da Unifesp (2017-2021).

quarta-feira, 30 de maio de 2018

3rd World Congress of Environmental History – 2019


O 3RD WORLD CONGRESS OF ENVIRONMENTAL HISTORY convida acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento para incluirmos a história ambiental em uma perspectiva planetária. As categorias “Sul e Norte Global” foram criadas no século XX e são historicamente conhecidas. Elas apontam para a diversidade e a desigualdade das sociedades humanas passadas e presentes, e como elas transformaram suas paisagens, exploraram os seus recursos naturais e se conectaram umas com as outras. Os desafios colocados por essas conexões e a dinâmica de comunidades humanas e não humanas ganharam urgência no que tem sido chamado de a “Era da Grande Aceleração”. Desde os pioneiros estudos sobre a história dos rios, das cidades, das montanhas, florestas e da agricultura, até as narrativas mundiais sobre transmigração de plantas, animais, doenças, pessoas e mercadorias, historiadores e outros pesquisadores do campo das humanidades ambientais, têm contribuído para o debate, cada vez mais recorrente, sobre como enfrentar os desafios ambientais do século XXI. O comitê organizador WCEH2019 tem por objetivo promover um espaço de debates que favoreça o diálogo interdisciplinar. Desta forma, convidamos aos pesquisadores para que apresentem propostas de trabalho que privilegiem o diálogo entre os diferentes participantes e que envolva tópicos relacionados às diferenças de geracionais, geográficas e de gênero.

O WCEH2019 anuncia Bert Bilott e  Brigitte Baptiste como conferencistas

O 3rd World Congress of Environmental History, contará com duas importantes palestras plenárias, apresentando dois importantes expoentes do ativismo ambiental internacional. Estarão conosco em Florianópolis, Brasil, o advogado e ativista ambiental norte-americano Robert Bilott e a bióloga e ativista colombiana Brigitte Baptiste. Segundo Lisa Mighetto e Stefania Gallini, membros do Comitê do WCEH2019, a organização do evento está estusiasmada com a inclusão desses dois profissionais, mundialmente reconhecidos pelo seu protagonismo nas questões socioambientais.
Robert Bilott, é um ativista e advogado ambiental da empresa Taft Stettinius & Hollister. Em 2017, ele foi premiado com o Right Livelihood Award por seu importante trabalho no no combate à poluição química e mobilização social contra substâncias perigosas nos Estados Unidos. O caso mais conhecido da atuação de Bilott foi o processo envolvendo a empresa DuPont Chemical, em um processo relacionado ao envenenamento de gado na West Virgínia e a contaminação dos cursos d'aguas por aterro sanitário altamente poluente. A investigação de Bilott não apenas expôs a contaminação da DuPont, mas também alertou a opinião pública sobre os perigos que as substâncias químicas não regulamentadas representam.
Brigitte Baptiste é uma ecologista colombiana que atua na Plataforma Intergovernamental de Política Científica das Nações Unidas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, criada em 2012). Segundo Lisa Mighetto e Stefania Gallini, a ativista colombiana se define como uma ecologista de paisagem cultural, que tem se dedicado à análise do papel da biodiversidade na mudança do uso da terra, bem como as práticas atuais de gestão dentro dos contextos institucionais. Desde 2011 ela atua como Diretora Geral do Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Humboldt – o braço científico e consultor de políticas do Ministério do Meio Ambiente da Colômbia. Além da sua atuação com ativista ambiental ela também tem sido uma voz proeminente na luta pela paz na Colômbia e uma agente privilegiada na integração do que ela define como “a biodiversidade florestal”. Em 2017, ela foi homenageada com o The Prince Claus Award por suas realizações notáveis ​​como cientista e ativista.

Certamente a participação destes dois importantes ativistas no WCEH 2019 será uma experiência memorável. Convidamos a todos os membros da Sociedad Latinoamericana Y Caribeña de História Ambiental para que incluam em suas agendas e se juntem a nós no evento em Florianópolis (22 a 26 de julho de 2019).

Fonte
https://www.3wceh2019.floripa.br/

domingo, 20 de maio de 2018

As águas e a cidade de Belém do Pará: história, natureza e cultura material no século XIX

As águas e a cidade de Belém do Pará: história, natureza e cultura material no século XIX

Tese de doutoramento de Conceição Maria Rocha de Almeida, defendida na PUC-SP em 2010 



Resumo

No decorrer do século XIX, os habitantes de Belém do Pará deram prosseguimento à construção da cidade em meio ao convívio com as águas. Assim sendo, a história de Belém é também a história do controle desse elemento, o que implicou em conhecer e organizar de diferentes modos, as muitas águas presentes – desde a constituição de saberes sobre a localização das mesmas, até as opções relativas ao seu uso. A presente tese tem por objetivo apresentar uma história social da água em Belém do Pará no decorrer do século XIX, a partir do estudo de inventários, testamentos, relatórios de dirigentes, textos jornalísticos, dentre outros documentos. Nesse sentido foi considerado que os usos das águas guardaram conexões com modos de pensar relacionados às ideias de natureza, civilização e com a recorrência a uma produção material importante. Os sujeitos enfocados são diversos, como diversos, também, a etnia, condição social, gênero, nacionalidade e naturalidade dos mesmos, suscitando discussões sobre sensibilidades esboçadas em relação aos objetos e/ou recursos pertinentes à lida com a água. No interregno proposto, o processo de apropriação das águas ocorreu mediante determinadas continuidades de procedimentos, ou seja, as águas usadas por muitos moradores de Belém eram coletadas nos exteriores de suas moradias e prédios em geral, não raramente nos poços. Pelos logradouros da cidade elas foram transportadas, adentrando os interiores das casas através do uso de pipas, potes, bilhas, bacias e demais recipientes, numa reprodução de ações indispensáveis à vida na cidade. Por outro lado, o processo de relação dos habitantes de Belém com as águas também passou por mudanças, conectadas aos modos de pensar o viver numa cidade que abrigava moradores variados e que “deveriam” observar regras de progresso e civilização. Daí, a recorrência crescente aos encanamentos, às torneiras, aos lavatórios, às latrinas entre outros. Nessa perspectiva, a água foi organizada mediante princípios de invisibilidade, percorrendo ruas e prédios através do encanamento, jorrando pelas torneiras em consonância à intervenção de cada morador e sendo “esgotada” por intermédio de um sistema de canalização específico. Mas esse não foi um processo definitivamente concluído. Em meio à expansão da cidade, no decorrer do século XX e primeira década do XXI, inúmeros são os habitantes de Belém atingidos pela carência de água e às voltas com a abertura de poços e usos de baldes, latas, bacias, potes e bilhas. 

Palavras-chave: Água. Cidade.  Belém do Pará.  História Social.  Natureza.  Cultura Material.    Século XIX. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Brechó is a new black: moda sustentável


Por Ana Vieira*

A moda sustentável vem sendo assunto corrente em qualquer roda de discussão sobre moda, ou história da moda, pois é fato que já retiramos do planeta uma quantidade imensa de recursos de todas as ordens, principalmente os não renováveis, logo neste século nossa missão é inventar outras formas de existir.


Então em vários seguimentos vemos movimentos de buscar soluções para esse esgotamento do planeta, novos combustíveis, novas formas de produzir alimentos, de construir cidades, utilizar e reaproveitar a água...  E porque não outra forma de vestir, já que a indústria têxtil é uma das mais poluentes.
Segundo o site www.ecycle.com.br  a média de gasto com água para tingir e fabricar uma calça jeans é de 150L, de agua que será contaminada com pigmentos e metais pesados, o tecido jeans é feito de algodão, uma fibra que segundo Napoleão Beltrão, pesquisador dessa cultura na EMBRAPA-algodão de Campinas ( Empresa brasileira de pesquisa agropecuária)  além do enorme uso de água e agrotóxico em seu cultivo, causa esgotamento do solo e doenças nos produtores, sem contar que com a crescente demanda e decrescente produção logo estaremos reféns do produtor externo.
A produção de algodão é só um dos problemas que a indústria da moda enfrenta, temos as fibras sintéticas que a cada lavagem desprende micro plástico nos oceanos, a seda que para ser retirada mata o bicho que produz o casulo, o cânhamo, uma fibra que enriquece o solo e é usada amplamente na Europa não pode ser produzida no Brasil por conter canabidiol (alucinógeno encontrado na maconha) , o linho, fibra natural que foi um sucesso até os anos 80 teve sua fabrica mais forte, a Braspérola fechada ano passado,  logo vivemos uma crise da indústria têxtil que  passa por um momento de pouca oferta de matéria prima, e as que existem em abundancia sacrificam o meio ambiente e afastam os consumidores minimamente instruídos sobre a crise ambiental.
A descoberta e recente divulgação do uso de trabalho análogo à escravidão pelas grandes marcas da indústria da indumentária  que  instalam suas fabricas em países em crise pagando centavos por uma peça que depois será vendida por centenas de reais na lojas causaram revolta dos consumidores mais críticos que propuseram boicotes a essas marcas, como em mostrado no documentário “The true cost, o verdadeiro custo da moda” disponível nas plataformas  Netflix e Youtube.  
Então qual é a peça boa pra vestir, ecologicamente correta?
 Peguemos como guias três grandes cabeças pensante do Brasil sobre moda sustentável, Lilian Pacce, editora de moda da Vogue Brasil e apresentadora do GNT FASHON, no canal GNT,  Fernanda Cortez, do projeto Menos um lixo, e Chiara Gadaleta, dona de 3 marcas de alta costura sustentável, essas três mulheres chagaram a seguinte conclusão “ a melhor peça é a peça que já está pronta” , logo é aquela que não vai mais usar recursos naturais na sua fabricação.
O brechó é uma opção sustentável e acessível tomando como base diversos conceitos da moda consciente que veremos abaixo:
1-Usabilidades das peças: as peças que chegam ao brechó geralmente são de excelente qualidade, tecidos e materiais que não existem mais, acabamento, modelagem e corte mais bem elaborados, logo poderão ser usadas por mais tempo.
2- Custo benefício: para obter esse valor devemos dividir o valor pago pela peça pelo numero de vezes que vamos utilizar a mesma, para ser um bom custo devemos ter pagado menos de um real por uso peça, ou seja, uma calça jeans de 100 reais deve poder ser usada mais de 100 vezes.
3-Exclusividade: ao contrário das lojas fast fashion , que produzem muitas peças do mesmo modelo no brechó existem peças únicas.
4- Reutilizar: roupas de brechó serão usadas por seu segundo ou terceiro dono, que dará um novo significado e utilização a essas peças retardando seu descarte.
5- Customizar: comprar uma peça nova e cara às vezes nos impede de rasgar, costurar, bordar e personalizar essas peças, como o brechó nos oferece baixo custo podemos reciclar usando toda nossa criatividade, inventando peças mais exclusivas ainda.
6- Menos resíduos: comprando em brechós prolongamos a vida útil da peça e evitamos ou adiamos a sua chagada nos aterros sanitários.
7-Baixo custo: é muito comum encontrar roupas com marcas renomadas em brechó que provavelmente tiveram um custo altíssimo na loja por 10% desse valor.


Convencidos? O ultimo ponto importante para salientar antes da sua primeira ida ao brechó é que existe vários tipo de brechó:
Brechó gourmet: os proprietários compram as roupas de particulares e existe uma curadoria desse acervo, esse espaço parece uma butique, as peças estão separadas e limpas, geralmente vende marcas consagradas e o preço pode ser ou não muito atrativo.
Brechó bagunça: as roupas não estão limpas, geralmente separadas só por categoria, calças, saias, camisas... Mas os tamanhos todos misturados, não existe curadoria, mas é o mais divertido de “garimpar” se não se sofre com alergias e os preços são ótimos.
Bazar: feitos por igrejas e instituições de caridade servem para angariar fundos apara obras sociais, as peças são baratas, pois são doadas por pessoas que ajudam essas instituições, costumam ter dias específicos para acontecer que e são divulgados de diversas formas, desde uma placa na frente do prédio até em posts nas redes sociais. A organização varia muito de bazar para bazar, contudo chegue cedo para pegar as melhores peças.
Feiras de brechó: eventos que acontecem sazonalmente e juntam vários brechós, e algumas pontas de estoque de lojas (roupas novas), são organizados, tem muita variedade e os preços variam muito também.
Brechós vintages: curadoria muito séria, seu acervo só aceita peças originais com mais de 20 anos de fabricação, seus curadores são estudiosos de história da moda esses geralmente tem preço médio, justo para a qualidade e história da peça e são frequentados por pessoas interessadas em moda vintage, para montar figurinos e fazer pesquisas para teatro, televisão e fotografia.
Feiras de trocas: evento sazonal que junta pessoas que levam suas roupas usadas que não querem mais para trocar entre as outras pessoas que estiverem no evento, este geralmente é divulgado pelas redes sociais ou acontecem em lugares e dias definidos. Geralmente sabemos desses eventos por divulgação boa a boca.
Ao contrário do que são comumente pensados os brechós não tem só roupas velhas ou de “morto” é um mercado crescente, e vantajoso não só pra quem compra mais, ou para quem vende, é vantajoso para construir uma nova forma de consumir. Então te convidamos a perder a vergonha, escolher seu tipo de brechó, pegar sua ecobag e vamos garimpar?  

*Ana Vieira é professora de história em Salvaterra - ilha do Marajó - PA, maquiadora e aluna do curso de especialização em Ensino de História na UFPA.