sábado, 8 de outubro de 2022

O milagre de Nazaré: história e natureza

O Círio de Nazaré é a maior festa católica. Acontece no mês de outubro na cidade de Belém do Pará, região Norte do Brasil. Realizada no coração da Amazônia, os registros históricos apontam sua primeira edição em 1793. Desde 1882, a cada ano os coordenadores dessa festa religiosa apresentam ao público um cartaz oficial da festividade que é distribuído ao fiéis. 

Umas das imagens que compõem alguns dos cartazes faz referência a Lenda de Nazaré. Esse episódio teria acontecido no dia 14 de setembro de 1182  quando Dom Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós (uma espécie de governador ou juiz de uma vila fortificada na Idade Média), caçava à cavalo junto ao litoral foi envolvido por um nevoeiro que o impedia de enxergar que estava correndo risco por estar perto de um despenhadeiro. Nesse momento Dom Fuas avistou um veado e começou uma perseguição que o levou ao topo de uma falésia. Em meio ao denso nevoeiro, ele rogou pela Virgem Maria que lhe concedeu o milagre de se salvar da queda. 

A Lenda de Nazaré tem outros desdobramentos que explicam a origem da devoção a Nossa Senhora de Nazaré. No entanto, já nos é suficiente para pensarmos algumas questões em relação a história e o meio ambiente. Em seus estudos, o prof. Geraldo Mártires Coelho destaca uma provável relação entre essa veneração e as águas. Seja o Oceano Atlântico que fazia limite às falésias em Nazaré, seja o igarapé onde uma imagem de Maria com o Menino Jesus foi encontrado na Amazônia no século XVIII. Há também relatos que apontam para a devoção de navegantes que avistavam essas falésias e clamavam por socorro à Virgem. 

Outro ponto que nos permite pensar sobre a dimensão ambiental da Lenda de Nazaré se refere ao significado da caça para a sociedade aristocrática do século XII. Documentos de época demonstram que a caça foi uma prática muito comum entre os membros que compunham a nobreza dessa região. Ser um caçador eficiente deveria ser uma virtude do Rei. Havia territórios destinados para esse tipo de atividade que significava status social e diferenciação entre os personagens que compunham aquela sociedade medieval. 

Os veados aparecem em destaque nos documentos históricos que informam essa atividade predatória. Outas espécies perseguidas que podemos identificar são: porcos, lebres, lobos e perdizes. Isso nos permite conhecer parte da fauna das florestas do litoral português, especialmente em Nazaré. 


O cartaz do Círio de Nazaré do ano de 1855 recupera essa relação entre o Milagre de Nazaré e os naufrágios, lembrando do episódio em que o Brigue S. João Batista passou apuros no litoral do Pará. As iconografias apresentam sempre Dom Fuas Roupinho montado sob seu cavalo, outra espécie indispensável tanto para a atividade de caça quanto para denotar virtude aristocrática no âmbito do que poderíamos chamar de "diversão" mas também treinamento para guerra, demonstrando virilidade marcial. 

Assim, as iconografias sobre a Lenda de Nazaré também podem nos revelar as falésias como uma geomorfologia da região que participou da construção do Milagre não apenas como um cenário estático, mas sim um elemento central da narrativa mítica. Abre-se, portanto, nossa compreensão para a dinâmica social de Portugal Medieval, menos com seus personagens encastelados e mais em interação profunda, simbólica e até sobrenatural com a natureza.

Referências

COELHO, Maria Helena da Cruz; RILEY, Carlos Guilherme, «Sobre a caça medieval», Estudos Medievais, nº9, Porto, 1988.

COELHO, Geraldo Mártires. Uma crônica do maravilhoso: legenda, tempo e memória no culto da Virgem de Nazaré. 1998.

sábado, 5 de março de 2022

História dos animais na Rússia: ursos

Você sabia que o urso não é o símbolo oficial da Rússia? Atualmente, o símbolo oficial da Rússia é uma  águia de duas cabeças  (representada no emblema nacional russo). Pessoas de fora da Rússia passaram a considerar o urso como símbolo da Rússia e ao que tudo indica os russos tiveram que aceitar essa quase imposição. Isso foi tão forte que no na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de 1980 o urso ocupou o centro da festa como o maior símbolo do país. 


Podemos afirmar que na Rússia o urso é um agente histórico. Talvez seja o animal mais venerado desde os tempos antigos. Para os primeiros povos indo-europeus, o urso era na verdade um animal a ser cultuado como um ancestral da coletividade. Sabe-se também que durante vários séculos na Idade Média, trupes viajaram por toda a Rússia com ursos 'domesticados' que haviam sido treinados para dançar, fazer truques simples e até pedir esmolas. 

Uma das principais “vocações” dos ursos em fins da Idade Média e início da Era Moderna foi a de executar vítimas humanas em uma arena como predador. Esse tipo de execução já vinha sendo praticado desde os tempos antigos, mas foi sob Ivan, o Terrível, no século 16, que as execuções com ursos se tornaram populares. Muitas vezes os ursos eram usados ​​indiretamente no processo de execução: um condenado era costurado em uma pele de urso e, em seguida, cães eram colocados sobre ele, rasgando a pele do urso junto com o condenado dentro.


Em 1526, o diplomata austríaco Siegmund von Herberstein escreveu que durante o inverno na Rússia "os ursos, levados pela fome, deixaram os bosques, correram pelas aldeias vizinhas e invadiram as casas; ao vê-los, os aldeões fugiram de suas casas e morreu de frio, uma morte lamentável." Esse relato impressionou muitos viajantes italianos, poloneses, britânicos, alemães e holandeses que passaram pela Rússia ao longo dos século XV e XVI. 

A história dos ursos na Rússia nos permite conhecer dinâmicas daquela sociedade humana pouco explorada pela historiografia, como a circulação das trupes e as apresentações de aspecto quase circense pelas cidade daquela nação. A relação entre humanos e animais também revela a domesticação de espécies selvagens assim como a utilização das bestas feras para a violência, entretenimento e execução de pena de morte. Por fim, garante-nos conhecer o processo de transformação da figura do urso como mito para a nação russa. A história dos animais, portanto, amplia de forma considerável nossa compreensão sobre a história. 

Fontes: Russia Beyond

BRUNNER, Bernd. Bears: a brief history. Yale University Press, 2007.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

História dos animais na Ucrânia

Na região que hoje conhecemos como Ucrânia, foi encontrado um sítio arqueológico uma casa construída com ossos de mamute. Os estudiosos explicam que isso aconteceu pelo fato de que essa área não contava com árvores apropriadas para essa finalidade. Também fora encontrando adornos feitos com ossos de mamute, evidenciando a importância desse grande animal não apenas para a alimentação de outras espécies. 


Umas das mais importantes peças do acervo do Museu Histórico dos Tesouros da Ucrânia revelam os animais ocupando um papel central no imaginário das sociedades antigas que habitaram a região pelos idos do século IV A.C.  Trata-se do Peitoral Dourado de Tovsta Mohyla, um antigo tesouro descoberto em um cemitério de Tovsta Mohyla em 1971 pelo arqueólogo ucraniano Boris Mozolevski. Animais de várias espécies podem ser observados como figuras que inspiraram esse adorno - alguns até tomando formas mágicas, como os cavalos alados. 


Outra relação entre humanos e animais na história da Ucrânia é a domesticação de cavalos. É provável que nessa região os primeiros cavalos tenham sido domesticados por humanos. Novas pesquisas indicam que os cavalos domésticos se originaram nas estepes da Ucrânia moderna, misturando-se com espécies selvagens locais à medida que se espalham pela Europa e Ásia. A pesquisa foi publicada em 07 de maio, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences .

Por várias décadas, os cientistas ficaram intrigados com a origem dos cavalos domesticados. Com base em evidências arqueológicas, há muito se pensava que a domesticação do cavalo se originou na parte ocidental da estepe euro-asiática (Ucrânia, sudoeste da Rússia e oeste do Cazaquistão); no entanto, uma única origem em uma área geograficamente restrita apareceu em desacordo com o grande número de linhagens femininas no pool genético do cavalo doméstico, comumente pensado para refletir múltiplos "eventos" de domesticação em uma ampla área geográfica.


A fim de resolver a história intrigante do cavalo doméstico, cientistas da Universidade de Cambridge usaram um banco de dados genético de mais de 300 cavalos encontrados em toda a estepe euro-asiática. 

A pesquisa mostra que o ancestral selvagem extinto dos cavalos domésticos, Equus ferus , expandiu-se para fora do leste da Ásia há aproximadamente 160.000 anos. Eles também foram capazes de demonstrar que o Equus ferus foi domesticado na estepe eurasiana ocidental e que os rebanhos eram repetidamente reabastecidos com cavalos selvagens à medida que se espalhavam pela Eurásia.

Vera Warmuth, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, disse: "Nossa pesquisa mostra claramente que a população fundadora original de cavalos domésticos foi estabelecida na estepe eurasiana ocidental, uma área onde foram encontradas as primeiras evidências arqueológicas de cavalos domesticados. A disseminação da domesticação do cavalo diferiu de muitas outras espécies de animais domésticos, pois os rebanhos em expansão foram aumentados com cavalos selvagens locais em uma escala sem precedentes. Se esses eventos de repovoamento envolveram principalmente éguas selvagens, podemos explicar o grande número de linhagens femininas no pool genético de cavalos domésticos sem ter que invocar múltiplas origens de domesticação."

Os pesquisadores fornecem a primeira evidência genética para uma origem de domesticação geograficamente restrita na estepe euro-asiática, como sugerido pela arqueologia, e mostram que a enorme diversidade feminina é o resultado de introduções posteriores de éguas selvagens locais em rebanhos domésticos, conciliando assim evidências que anteriormente deram origem a cenários conflitantes.

A pesquisa foi financiada pelo BBSRC, Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e pelo Leverhulme Trust.

Dessa maneira, a história dos animais não humanos amplia nossa compreensão sobre a história das sociedades humanas. 

Fonte: Science Daily

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Natureza na Semana de 22: a capa Modernista de Di Cavalcanti

Seria a Natureza o centro da Semana de Arte Moderna de 1922? Pelo menos no cartaz de apresentação desse movimento, sim.  A capa do programa da Semana de Arte Moderna de 22 é de autoria do pintor Di Cavalcanti e está sob a guarda da Universidade de São Paulo, no Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros. Nela uma árvore está no centro e representa as aspirações de artistas que viriam a ser muito frutíferas e transformariam a cultura paulista.

O arbusto seco não aparenta ser novo, mas uma planta com suas raízes expostas que resistiu ao solo árido e mesmo assim apresenta brotos vermelhos que combinam com a primeira e última letra da frase que está acima. Seria, portanto, a cultura nacional e a cidade de São Paulo solos áridos, o movimento modernista essa árvore resistente e a Semana de 22 seus brotos e folhas vermelhos como o sangue que corre em nossas veias?

Vale lembrarmos da provocação de Nicolau Sevecenko (2003, p. 29) questionando como pode uma árvore e seus frutos não dependerem "das características do solo, da natureza do clima e das condições ambientais”? Isso nos leva a pensar que a presença da planta revela um processo dialético entre a nova proposta artística dos modernistas e a cultura que buscavam superar. Seriam, portanto, frutos desse contexto em que renascem.

Por último, a capa do programa da Semana de 22 nos lembra como a Natureza é o principal elemento do mundo material no qual se baseiam os símbolos criados pelos humanos, em especial os artistas. Neles podem haver mais significado que as próprias palavras, por isso, nós devemos ter a máxima atenção com a Natureza, lendo aquilo que não está escrito. 

Referência
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

Edital PROFCIAMB: prorrogação

Foram prorrogadas até 28 de fevereiro de 2022 as inscrições para o processo seletivo de candidatas(os) ao curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (PROFCIAMB), do Instituto de Geociências (IG/UFPA). São oferecidas 16 vagas: duas vagas estão destinadas para Ação Afirmativa (AAf) - quilombolas e indígenas - e quatro, para funcionários da UFPA por meio do Programa de apoio à qualificação de servidores docentes e técnicos administrativos (PADT/PROPESP). Mais informações nos documentos anexos ou pelo site https://www.profciamb.propesp.ufpa.br/index.php/br/



terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Este rio é mais que minha rua - história através do rio Paracauari


A pesquisa se propôs a colocar em prática uma metodologia de ensinar história através dos rios, analisando as conexões entre a história das primeiras civilizações humanas que se organizaram nas margens dos rios e as vivências dos alunos do sexto ano do ensino fundamental da escola Oscarina Santos, localizada no município paraense de Salvaterra, no arquipélago do Marajó, considerando o conhecimento e a experiência desses estudantes a respeito do rio Paracauari. Como resultado dessa pesquisa, produzimos um plano de ensino anual, para introdução do meio ambiente nas aulas de história, que contempla as 60h/aula distribuídas em 40 dias letivos referente a um ano letivo para turmas de sexto ano. Esse plano é subdividido em planos de aula, sequências didáticas e atividades. Nosso público-alvo são os educadores de história que desejem introduzir história ambiental em suas aulas.

Palavras-chaves: Rios, ensino de história, Marajó.