terça-feira, 20 de outubro de 2020

3º Seminário Amazônico de História e Natureza

 Você já imaginou participar de um congresso de alto nível sobre a Perspectiva Ambiental da História, sem sair da sua casa?


Em sintonia com a realidade atual e a preocupação em oferecer opções dinâmicas de divulgação científica, o Grupo de Pesquisa História e Natureza (CNPq/UFPA) realizará entre os dias 24 e 27 de novembro de 2020, o 3º Seminário Amazônico de História e Natureza (SAHN). 

O evento está recebendo resumos para comunicação oral e inscrições como ouvintes. 

A 3º edição será 100% online e contará com os mais renomados pesquisadores do campo da história ambiental no Brasil e internacionalmente. Abordaremos os temos históricos a partir do campo da história ambiental, considerando sempre a importância do debate interdisciplinar.  

Inscrições acesse https://sahn3.webnode.com/

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ourém de outrora: memórias na leitura do presente

Sueny Diana Oliveira de Souza*

 Nasci nas margens do rio Guamá, na pequena cidade de Ourém, fundada ainda no século XVIII, durante o governo de Mendonça Furtado, que com mais de 250 anos de existência foi desmembrada, dando origem a muitos outros municípios do nordeste paraense e se mantém pequena e com um ritmo de vida que parece desafiar o tempo marcado pelo relógio. Uma cidade cortada pelo rio que delimita a fronteira administrativa com a cidade de Capitão Poço, desvinculada de Ourém há 59 anos.

Ali, na vida cotidiana, o ir e vir sobre o rio é constante. Mas a relação com o rio, com as estradas e a ocupação tem sofrido grandes impactos e alterado a minha percepção sobre estes espaços.

Parto da minha infância na metade da década de 1990, quando vivia em uma cidade cuja sede municipal em quase nada destoava da sua zona rural, exceto pelo fato de possuir iluminação elétrica e possibilitar o acesso a alguns serviços básicos de saúde e educação. Uma cidade onde grande parte dos moradores retirava seu sustento das plantações na zona rural, que tinha na base da economia a agricultura familiar, o pequeno comércio e o funcionalismo público. Havia pouco mais de 15 mil habitantes em toda sua extensão territorial, as ruas praticamente sem pavimentação, onde galinhas, patos e animais de estimação circulavam, e quase todas as tardes também eram ocupadas pelo gado de rebanhos deslocados das áreas abertas onde pastavam para as fazendas onde ficavam confinados.

Um lugar que antes do raiar do sol era invadido por trabalhadores agrícolas que se deslocavam de bicicleta ou a pé para suas roças localizadas em comunidades no entorno do centro urbano. Era quase uma romaria que se repetida todos os dias, pela manhã e à tarde na volta para casa, exceto aos domingos. Num período em que as estradas eram caminhos um pouco mais largos por onde circulavam produtos agrícolas em geral, carregados em cavalos, burros ou bicicletas.

E foram por essas estradas que cumpri as jornadas de deslocamento para chegar à casa de meus avós e às terras de onde vinham nossos sustentos com o trabalho na roça de meu pai, avô, tios, primos e tantos outros familiares de sangue ou adquiridos pelas relações sociais e de trabalho.

O sítio localizava-se (e ainda existe no mesmo local) a oito quilômetros do centro urbano de Ourém, na margem do rio que agora está sob a jurisdição do município de Capitão Poço. Quase um acaso, fruto do processo de desanexação das terras, pois o fato de a comunidade familiar Santo Antônio localizar-se na margem do rio que não se encontra sob a jurisdição de Ourém, em nada influenciava na dinâmica cotidiana, pois as vendas e compras dos produtos agrícolas ocorriam nesta cidade, que também era lugar de moradia em alguns dias da semana. Era também a sede da cidade, um lugar que recebia procissões de pessoas para as missas aos domingos pela manhã. As pessoas que cruzavam o rio e o percebiam ora como um aliado elemento da natureza, ora como um desafio que precisava ser transposto nos deslocamentos contínuos.

As relações com o rio misturavam-se às relações de sociabilidades, que eram reafirmadas sempre quando fosse lhe transpor gritava-se de uma margem a outra pedindo aos moradores que fizessem nossas travessias em canoas. Embora os moradores desta localidade não se incluíssem na definição de ribeirinhos, provavelmente por não terem na relação com o rio a base fundamental para a subsistência de seus moradores, o rio era primordial na dinâmica cotidiana e representava a proximidade com a pesca artesanal, fonte essencial para a alimentação, que, aliada ao que se produzia nas roças garantia a sobrevivência dessas famílias. E as relações se alteravam dependendo do caminho a ser trilhado ou em que altura o rio seria atravessado.

O final da década de 1990 e início dos anos 2000 alteraram a relação com o rio e ampliaram a importância atribuída às estradas. A ponte de madeira que ligava Ourém a Capitão Poço foi substituída por uma de concreto, depois de quase ter sido arrastada pela força das águas de março no inverno amazônico. Desde então, os caminhos onde antes passavam bicicletas e cavalos passaram a ser alargados para que pudessem ser trilhados por carros e caminhões que começavam a se tornar mais frequentes e precisavam vencer as distâncias entre o centro urbano e os sítios e fazendas nos arredores rurais localizados em Ourém ou Capitão Poço.

As transformações espaciais da cidade foram acontecendo lentamente. As áreas abertas que antes recebiam gado para pastar ou eram usadas como campo de futebol por inúmeras crianças passaram a ser ocupadas com casas de moradia. Uma expansão que foi marcada pelo fortalecimento do comércio e migração de pessoas, muitas provenientes das zonas rurais, que vieram para Ourém trabalhar nos comércios ou nas seixeiras que passavam por um processo de ampliação.

As seixeiras passaram a se proliferar nas zonas rurais de Ourém, nas estradas que interligavam a São Miguel do Guamá, Capanema, Bonito e Capitão Poço. Grande parte desses estabelecimentos se localizavam seguindo o curso do rio Guamá, em diferentes locais da sua extensão.

Acompanhando esse novo momento na economia, veio a ampliação do número de habitantes na cidade e uma redefinição das zonas rurais, pois as pequenas propriedades rurais pressionadas pela corrida em busca do seixo deixaram de existir, o que levou muitos trabalhadores antes rurais a migrar para o núcleo urbano a fim de venderem sua força de trabalho para os donos das seixeiras.

As mudanças se deram no âmbito espacial, econômico, nas relações de trabalho e sociais, assim como esse processo trouxe uma face da violência que Ourém não conhecera até então. A cidade que não era assombrada por assaltos até o início dos anos 2000, passou a vivenciar o medo que se tornou frequente. E os meios de locomoção antes utilizados em sua maioria bicicletas foram substituídos por motos, que se multiplicavam cada vez mais.

E a relação com o rio? Ah! De elemento da natureza importante para a subsistência e que precisava ser transposto nos trajetos para as zonas rurais, passou a se restringir quase que exclusivamente como fornecedor de água para lavar o seixo nas seixeiras, que na segunda década dos anos 2000 ocuparam as margens de quase todas as estradas e por todas as suas respectivas extensões.

E nesse processo vi as terras antes trilhadas a pé no percurso até a casa dos meus avós ganharem estradas alargadas para possibilitar o trafego de carretas. Vi a natureza ser completamente alterada, com igarapés assoreados e as margens do Guamá completamente degradadas. Vi ainda barragens de resíduos da exploração do seixo serem construídas quase que às cegas e ameaçarem as comunidades que teimam em subsistir. E vejo as comunidades que ainda resistem terem suas atividades alteradas. Primeiro, porque os trabalhos agrícolas cada dia têm menos importância para a vida cotidiana e a opção de trabalhar para os outros torna-se mais atraente, assim como a venda das terras era o meio de conseguir uma quantia em dinheiro de forma mais rápida. Segundo, porque algumas comunidades ainda se mantêm por serem terras de herança e ainda contam com pessoas idosas, cujo apego e relação com a terra são ancoradas em memórias de tempos idos...

As empresas de exploração de seixo são empreendimentos que se instalam, aparentemente, sem nenhuma fiscalização ambiental têm transformado o espaço urbano e o rural de uma Ourém que continua pequena e cada vez mais enfrenta grandes problemas sociais, que parecem ser minimizados por ações como as vivenciadas a partir de 2010, quando levou energia elétrica às zonas rurais. E, como garantem empregos precários a uma parcela da população, provavelmente foram ignoradas tanto pelos habitantes quanto pelo poder público, que preferem fechar os olhos frente aos crimes ambientais, condições de trabalho precárias e falta de assistência e cumprimento da legislação trabalhista.

Caminhar por Ourém hoje é para mim viver um conflito constante entre as memórias de uma vida simples de grande interação com a natureza, de pouco acesso a bens materiais, de liberdade de circulação, que percebia a ida para igarapés e brincadeiras nos banhos de rio as faces do cotidiano. E um presente marcado por transformações sociais que trazem fortes impactos na natureza, com alterações nas paisagens e sentido atribuídos à relação com o rio e igarapés.    

Saí de Ourém em busca dos meus sonhos ainda na adolescência, no início dos anos 2000. Trilhei caminhos de pesquisa na graduação, mestrado e doutorado que hoje me fazem enxergar Ourém, suas fronteiras administrativas, problemáticas e relações sociais que se refazem, como em toda sociedade, mas para mim deixaram e deixam tristes expectativas, sobretudo por ser uma cidade marcada pela passividade, cujas transformações nas paisagens e degradação ambiental que têm poluído e acabado com igarapés e vêm desmatando e assoreando as margens ainda estreitas do Guamá de forma bem acelerada parecem não ser percebidas ou são facilmente ignoradas.

E, a vida segue ancorada em uma perspectiva de crescimento econômico ínfimo, com pouca ou quase nenhuma qualidade de vida, em uma relação com a natureza que se restringe a frequentar os balneários que se multiplicam e, para a sua existência, colocam em risco a existência dos mananciais que são represados para atender ao público, tendo suas margens desmatadas para a construção de bares e barracas. E, quase todos os anos, em períodos de águas altas no inverno amazônico, rios e igarapés são notados quando transbordam, cobrem os bancos das praças e invadem as casas, alterando o ritmo de vida de pessoas, com isso, muitos preferem acreditar que as forças das águas permanecem preservadas.

*A autora é professora da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará / campus de Ananindeua.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Uma planta em paralaxe: visões de natureza no filme 'O abraço da serpente'

Maria Góes
Ivana Machado
Evaldo Hughes
Maurício Silva

O filme "O Abraço da Serpente", lançado em 2016, com direção do colombiano Ciro Guerra, imerge nos sinuosos rios e imediações da Amazônia colombiana, em uma jornada entre duas temporalidades - os séculos XIX e XX, sendo fundamentado em pesquisas nos diários de expedições dos antropólogos Theodor Koch-Grunberg e Richard Evan Schultes. A sensibilidade semiótica da direção, integralmente em preto e branco, remetendo às fontes etnográficas clássicas, nos envolve em uma natureza que não se limita apenas ao palco da narrativa, transmutando-se também em um personagem, um sujeito meta-humano, que modifica e é modificado pelos seres, sincronicamente, durante todo o percurso. O próprio título reflete a composição sensorial do enredo, quando nos permite ter uma impressão visual do corpo da cobra realçada nas curvaturas dos rios, e os sons da floresta geram uma atmosfera que nos leva a adentrar os mistérios da mata fechada. Logo, é uma narrativa que leva o expectador a ser realmente abraçado por essa serpente que integra o mundo biofísico amazônico, num labirinto de texturas, sons e contrastes.


Somos defrontados por episódios que expõe as marcas da colonialidade nas Américas; o ciclo da borracha, as missões catequizadoras, o messianismo, o desenvolvimento da ciência, entre outros temas corriqueiramente encontrados em relatos escritos por viajantes do período. No entanto, o filme nos instiga a ir além do silêncio destas palavras que atravessaram o tempo, e trouxeram consigo o arquétipo de um índio singular e monocromático. Aqui, o não-dito toma forma, e nos mostra os indígenas, plurais, em várias nuances - indivíduos com agências e dissidências em meio a estes eventos, que expressam diferentes posicionamentos e formas de lidar com os entraves coloniais ao longo da trama. Karamakate, que teve seu povo totalmente dizimado pelos europeus, enxerga na colonização o signo da violência e destruição de tradições e existências, renunciando qualquer tipo de contato ou acordo ao isolar-se dos brancos e de outros povos que se relacionam com os colonizadores para preservar sua ancestralidade. Já Manduca, ajudante do cientista Theodor, aderiu aos costumes ocidentais e vê a ciência como horizonte para propagar conhecimento sobre os povos indígenas aos brancos.

A percepção dos personagens sobre alguns objetos nos convida a refletir sobre os paradigmas da alteridade, e a colisão cultural do encontro com a outra margem para além do Eu, o Outro. A utilização do mapa para guiar o caminho, que é uma representação sintética do espaço, a compressão de um “cenário” complexo, vivo e dinâmico, incomoda Karamakate, que interage com o espaço de forma mais espontânea, sem um objeto mediando o contato da paisagem com o ser, com o trajeto guiado pelo fluxo temporal da natureza, e não do ser humano. A densa carga que ambos europeus relutam em se desfazer, mesmo que dificulte a locomoção pelos rios, também pode ser analisada sob essa ótica. Ela representa o vínculo direto à suas nações, e a forma ocidental de lidar com o conhecimento – a ciência, que tende a categorizar e organizar os elementos do mundo em arquivos, relatórios, enfim, materializações, para explicá-los. É a única forma tangível que remete ao ethos europeu no meio de um lócus, um mundo cultural onde estes são estrangeiros. Para Karamakate, tudo isso parece frívolo, já que este possui o conhecimento vinculado à oralidade, sendo portador da própria tradição, sem a necessidade de uma documentação física para auxiliar seu exercício da memória. Ou seja, diferentes modos de lidar com os saber, que repercutem, consequentemente, em sentidos diferentes na mobilização dessa “bagagem” da experiência. 


Por fim, a busca pela planta mística Yakruna, que é o epicentro do enredo, confirma a intensa presença e poder que a natureza exerce sobre os personagens, ao atuar como um elo que perpassa os dois recortes temporais do filme. A planta é reinterpretada de acordo com a perspectiva sob a qual é submetida, possuindo simbologias e servindo a finalidades distintas. Os homens de ciência a enxergam como um elemento opaco, orientados por interesses de expansão econômicos e políticos ou pela promessa milagrosa de cura, já o personagem indígena Karamakate a percebe como elemento sagrado que deve ser preservado, pois é intrínseco a sua identidade étnica e pertencimento ao cosmos – a planta possibilita os rituais xamânicos que dão acesso ao conhecimento ancestral, sendo a serpente um ser mágico que criou a natureza e possibilitou a existência. Assim, o filme nos revela diferentes e contrastantes óticas sobre a natureza, dependendo do observador, e nos leva a refletir sobre nossa posição como seres portadores de historicidade dentro do mundo natural.

*as autoras e os autores são estudantes de graduação do curso de História da UFPA e membros do projeto de pesquisa 'Natureza nos relatos de viagem'. 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Continuidade cenográfica em Rugendas e Calixto

Diogo de Carvalho Cabral
School of Advanced Study - University of London


Ao brincar com duas imagens para uma apresentação ppt, me surpreendi ao perceber uma grande continuidade cenográfica. A obra da esquerda (bem oblonga) é "As perobeiras", em que Benedito Calixto (1853-1927) retrata o desmatamento numa fazenda de café em Bebedouro, oeste paulista, em 1906. A da direita é a famosíssima "Derrubada de uma floresta", em que Johann Moritz Rugendas (1802-1858) também retrata o desmatamento cafeeiro, possivelmente no Rio de Janeiro, em 1835. 


É quase como se Calixto estivesse estendendo o cenário enquadrado por Rugendas setenta anos antes, acompanhando a linha do relevo, da encosta em direção ao vale adjacente. Simbolismo semi-consciente que refletia a continuidade de um mesmo processo - o avanço da onda cafeeira sobre a Mata Atlântica - em outra porção do território nacional? No verso de sua pintura, Calixto escreveu "As Perobeiras (na terra do café) - É uma espécie da flora paulista que agoniza!"

segunda-feira, 13 de julho de 2020

História Ambiental Latino-americana: mesa GEPAM

O evento será realizado pelo Grupo de Ensino e Pesquisas Americanistas (GEPAM), vinculado ao CNPq, sediado na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). O encontro inicia no dia 27 de julho e o encerramento acontecerá dia 29 de julho. 


Dia 28 de julho

11 h | Mesa 3 - História Ambiental Latino-americana
com os Professores Doutores:
Diogo Cabral (Trinity College Dublin, Irlanda)
Guillermo Castro Herrera (Fundación Ciudad del Saber, Panamá)
Wesley Kettle (Universidade Federal do Pará - UFPA)






quinta-feira, 9 de julho de 2020

Capitães da Areia (1937): Varíola e Questão Social


Marlison Souza Moraes

Nos anos de 1930, na Bahia, Jorge Amado (1912-2001) escrevia de forma crítica acerca da epidemia de varíola – também chamada popularmente de “alastrim” e “bexiga” –, e no impacto que a doença exercia, principalmente, na população mais pobre da sociedade do período.
Publicado originalmente em 1937, o romance “Capitães da Areia” já denunciava em suas páginas a situação de abandono em que se encontravam os meninos de rua nas cidades da Bahia e também do Brasil. Além da própria existência de um tipo de linguagem da violência policial que reprimia ainda mais a vida difícil das crianças que, sob a luz do luar, dormiam em um trapiche abandonado.
Considerado escritor da Segunda Geração do Modernismo brasileiro, conhecida também como “Geração de 30”, o autor juntamente com outros nomes como Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz, traz em suas obras uma forte mensagem de denunciação sobre a realidade social, cultural e econômica do Brasil. A partir desse cenário de desigualdade social que atingia as crianças de rua, Jorge Amado constrói uma narrativa voltada para a denúncia dessas mazelas que constantemente se faziam presentes na sociedade brasileira da primeira metade do século XX.
Em uma das passagens mais delicadas do livro, o autor escreve que além do contexto da fome, da violência, da criminalidade e do desprezo social em que viviam os capitães da areia, eles também precisavam lidar com o terrível medo da doença de “bexiga”. É a epidemia de “alastrim” ou varíola que vai desencadear alguns dos momentos mais dramáticos e sensíveis do romance, pois um dos meninos da turma cai doente e percebe-se totalmente desamparado para enfrentar a situação.
No começo do capítulo em que o autor propõe um debate acerca dessa doença, ele começa falando que:

Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negro cheio de chaga em cima da cama. Então vinham os homens da saúde pública, metiam os doentes num saco, levavam para o lazareto distante. As mulheres ficavam chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam (...) Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto.

Apesar da importância da mensagem da cultura das religiões africanas e afro-brasileiras na passagem, Jorge Amado nos mostra que a epidemia era muito mais cruel com quem não tinha acesso à saúde básica no período para poder tratar da doença de forma adequada. Os que mais padeciam, geralmente, eram pessoas negras e pobres que viviam totalmente a margem da sociedade numa situação de extrema vulnerabilidade social. E os capitães da areia, como aborda o romance, também foram afetados de forma triste por eles fazerem parte desses sujeitos que viviam desassistidos pelo Estado e poder público local, o que contribuiu para a morte de um dos tripulantes da equipe. Uma criança.
Portanto, Jorge Amado, desde os anos de 1930, já escrevia sobre a importância da criação de políticas púbicas para o atendimento das pessoas mais pobres da sociedade. No contexto pandêmico do novo coronavírus no Brasil, Capitães da Areia (1937) assume uma importância ímpar no que diz respeito à mensagem crítica da forma como uma doença pode atingir uma parcela da população que vive em situação de vulnerabilidade. A chegada do vírus escancarou nossas desigualdades sociais, sendo os mais pobres e negros/as os/as que mais sofrem. Tal como nos mostra os escritos do romance de 1937, na cidade da Bahia.

Marlison é estudante do curso Licenciatura em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA) Campus Ananindeua. É membro do Grupo de Pesquisa CNPq  História e Natureza. Atualmente desenvolve pesquisa sobre os temas: História, Literatura e Gênero na Amazônia durante o período Civil Militar.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A natureza em Max Martins - palestra


O Grupo de pesquisa História e Natureza (UFPA/CNPq) convida todas e todos para participar nesta sexta-feira, dia 02 de julho de 2020, às 15h30, da palestra 'A natureza em Maz Martins', que será ministrada pelo professor Paulo Vieira.