terça-feira, 6 de abril de 2021

História ambiental nos STs da ANPUH 2021

31º Simpósio Nacional de Historia da ANPUH 

O prazo termina em 7 de abril para submeter comunicações:

ST 058. História Ambiental: ciência, fronteira e biodiversidade

Eunice Sueli Nodari (Universidade Federal de Santa Catarina), Lise Fernanda Sedrez (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sandro Dutra e Silva (UEG/UniEVANGELICA)

Resumo: Este simpósio temático (ST), vinculado ao GT Nacional História Ambiental da ANPUH, visa reunir pesquisadores(as) com diferentes formações acadêmicas, dedicados(as) aos estudos ambientais em perspectiva histórica, para apresentar e discutir suas pesquisas. O ST adota três eixos para a discussão: ciência, como lugar da produção do conhecimento e da interpretação das sociedades humanas em interação com o mundo biofísico; a fronteira, móvel e dinâmica, espaço de contato entre diferentes grupos humanos e não humanos, lugar da alteridade e do conflito, e da descoberta de novas situações; biodiversidade, compreendida como parte dos ecossistemas e como patrimônio que resulta das múltiplas relações entre natureza e cultura. O ST valorizará a abordagem da História Ambiental Global, por promover a compreensão de complexidade dos processos socioambientais e acolherá trabalhos que tenham como temas: relações entre ciência e sociedade em perspectiva histórica; interações entre cultura e natureza; biodiversidade nas fronteiras; ciência, políticas e práticas de conservação da biodiversidade; história da ciência; a natureza como objeto da ciência; transformações da paisagem em regiões de fronteira; biomas brasileiros no olhar da ciência; circulação global de ideias, experiências, pessoas, micro-organismos, plantas e animais; patrimônio cultural, ciência e biodiversidade, entre outros.

https://www.snh2021.anpuh.org/simposio/view?ID_SIMPOSIO=58


ST 059. História Ambiental: território, política e memória

Ilsyane do Rocio Kmitta (UEMS), Janes Jorge (História - Unifesp), Wesley Oliveira Kettle (Universidade Federal do Pará)

Resumo: A história ambiental tem registrado e problematizado diferentes perspectivas sobre a sustentabilidade e sobre os conflitos socioambientais que eclodem em diferentes contextos e temporalidades, desde temas clássicos, como a expansão do agronegócio sobre áreas naturais e os povos que ali viviam até novos desafios como o negacionismo. Agregamos a isso, os desafios da sustentabilidade e desenvolvimento seja em âmbito local, quanto regional ou global; os movimentos sociais, a antropização dos espaços, as paisagens culturais, as transformações naturais do mundo contemporâneo são temáticas que exigem estudos no campo das ciências humanas. O intuito é propiciar o diálogo entre diferentes abordagens teórico metodológicas e viabilizar a troca de informações entre pesquisadores, reunindo trabalhos que investigam as correlações entre História, território, política, memória e natureza, incluindo a dimensão simbólica.

https://www.snh2021.anpuh.org/simposio/view?ID_SIMPOSIO=59


quarta-feira, 31 de março de 2021

Minicurso: História Ambiental e os dilatados Sertões do Norte nos séculos XVIII e XIX

 


MC 18 - História Ambiental e os dilatados Sertões do Norte nos séculos XVIII e XIX     




Sinopse: Nos séculos XVIII e XIX os sertões do Brasil estiveram em disputa, principalmente em relação às  relações com o mundo natural. Essa era uma questão crucial às tramas e negociações a envolver os projetos seja da Coroa portuguesa ou da Corte do Império brasileiro no Rio de Janeiro e as  particularidades do território dos sertões, com sua grande diversidade de povos e de seus outros  traços biofísicos. Nesse âmbito, para além de mero cenário estático para a ação dos indivíduos,  buscamos compreender o chamado mundo natural como um aspecto fundamental nos embates em  torno do projeto colonial como na construção do Império brasileiro. O nosso objetivo neste minicurso, então, é propor uma abordagem que lance mão de metodologias da história ambiental, história  política e da história da cartografia com o fito de refletir sobre os sentidos dos vastos sertões do  Norte durante os séculos XVIII e XIX, envolvendo áreas com traços biofísicos bastante  particulares, como zonas correspondentes hoje aos biomas de Caatinga e da Amazônia. Para isso,  analisaremos fontes como as correspondências dos capitães-mores e ouvidores de capitanias do  Norte, mapas, relatórios de presidente de província e anais parlamentares.






Ministrantes: 


Antonio José Alves de Oliveira - Doutorado em História - UFSC 


Gabriel Pereira de Oliveira - Doutor em História Social - UFRJ e Professor do IFRN 


Wesley Oliveira Kettle - Doutor em História Social - UFRJ e Professor da UFPA



Para se inscrever, consulte o nosso site (link na bio do Instagram ou no site https://doity.com.br/sehis), especificamente, no menu “Inscrições”. Em caso de dúvidas, contate a equipe de organização, pelo e-mail sehis.sertoes@gmail.com.


Identidade visual do evento:

A árvore representada é a  Cecropia sciadophylla Mart. (Embaúba, Imbaubão, Imbaúba-gigante), que integra a “Relaçam das madeiras descriptas que se comprehendem no Termo da Villa da Caxoeira : com amostras e estampas exactas das mesmas". Trata-se de um conjunto de desenhos sobre papel a bico de pena com tinta preta e aquarelados com tonalidades diversas, feitos por Joaquim de Amorim Castro no final do século XVIII a partir de observações no Recôncavo e nos sertões baianos. Fonte: AHU_ICONM_BAHIA_FAUNA-FLORA, D. 33 - 78.

domingo, 21 de março de 2021

Grupo de pesquisa História e Natureza - agenda 2021

O Grupo de pesquisa História e Natureza (UFPA/CNPq) reuni pesquisadoras e pesquisadores, estudantes e profissionais das mais diversas áreas do conhecimento que se interessam em investigar temas ligados a interface meio ambiente e sociedade no tempo. 

A seguir divulgamos o calendário de atividades neste 1º semestre de 2021.

Caso queira participar, envie um e-mail para grhin@ufpa.br

1º Semestre 2021

MARÇO

10 - reunião de planejamento

31 - Clube de leitura (texto para estudo e debate)
MORIN, Edgar. El pensamiento ecologizado. Gazeta de antropología, v. 12, 1996.

ABRIL

dia 08 - Itinerário botânico - Museu Nacional de arte antiga (Portugal)

dia 14 - Plantas na história: roteiro virtual pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Apresentação: Prof. Dr. Bruno Capilé (LABHEN-UFRJ)
Horário: 09:00
Local: Plataforma Google Meet

dia 20 - Palestra sobre Edgar Morin
Profa. Bruna Vasconcelos (Rede pública estadual do Paraná)
Tema: História ambiental, ensino de história e a teoria da complexidade de Edgar Morin

dia 28 - História do clima por meio da pintura
Palestrante: Prof. Pedro Isidoro (Universidade Aberta - Portugal)

dia 28 - Clube de leitura

MAIO

dia 12 - Mesa 'Hidrelétricas na ditadura brasileira'
Nathalia Capellini (Université de Versailles SQY - Paris Saclay)
Matthew Johnson (Georgetown University)
Mediador: Bruno Capilé (Laboratório História e Natureza)
Horário 17h pelo canal Historix

Dia 26 - Clube de leitura

JUNHO

Curso de extensão 01 a 29 de junho

dia 09 - Palestra

Clube de leitura (data a definir)


Siga
www.fb.com/grhin
https://www.instagram.com/grhin.ufpa/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Cidade invisível, cidade dos encantados

por Aldrin Figueiredo

Acabei de assistir, nesse carnaval chocho, o último capítulo da série brasileira para a Netflix Cidade Invisível. Merece outra temporada e espero que incentive os produtores e diretores nessa trilha do fantástico com gosto local. O personagem central da trama é um fiscal ambiental, interpretado pelo ator Marco Pigossi, que perde a esposa (Julia Konrad) e acaba se envolvendo em uma batalha entre a realidade e um mundo invisível habitado por seres fantásticos, todos muito conhecidos do folclore brasileiro. Está mais, no entanto, para X-Men do que para Sitio do Pica-Pau Amarelo, com todo o suspense que se tem direito.



O nome da série Cidade Invisível se refere à cidade dos encantados, uma espécie outra dimensão da realidade, que pode ser adentrada pelos seres encantados ou pelo pajé (que tem esse dom xamanístico de transitar entre os mundos). Na série o tema é tratado de modo muito criativo, embora pudesse aprofundar os efeitos especiais. Quem já teve oportunidade de conversar com um pajé ou curador, sabe que na terra do fundo, os seres inanimados podem ganhar vida, uma cadeira pode ganhar a forma de onça, por exemplo. Ou, como me disse uma vez dona Zenaide, pajé do Cucuí, em Alenquer: lá é igual aqui, só que diferente. (algo Guimarães Rosa). É o duplo, o espelho, outro lado. Como vemos, o assunto já foi tema de Platão, de Freud, de Lewis Caroll, de Dalcídio Jurandir.

Acho que a maioria das pessoas vai estranhar, por exemplo, a Cuca, que na série não tem nada que ver com a jacaroa de Monteiro Lobato. A cuca Netflix (muito bem vivida por Alessandra Negrini) é muito mais próxima à Matinta-Pereira, bruxa amazônica, que tem entre seus fados a capacidade de voar, na forma de um papagaio. Na série, a Cuca vira borboleta, algo absolutamente comum no imaginário amazônico colonial, inclusive descrito com toques realísticos no Livro da Visitação do Santo Ofício ao Estado do Grão-Pará, em 1764, com detalhes sobre os grandes olhos da mariposa. Seu poder é o de penetrar nos sonhos, durante a vigília, e visitar a memória e o inconsciente das pessoas.

Outro personagem interessante é o do Saci (Wesley Guimarães), cuja narrativa está entre o drama da escravidão, quando perde a perna depois de um castigo, e a esperteza do menino que some no redemoinho. O saci, descrito no século XIX era como o pesadelo, preto retinto, de capuz vermelho, que aparecia no sonho. Pádua Carvalho anotou em Belém uma detalhada narrativa dessa história em 1886, que fez com que isso chegasse a Paris, pelas mãos de Santa-Anna Nery e do príncipe Roland Bonaparte.

Há também o Tutu, apelido do catitu. O mito do homem que vira porco, algo próximo mas diferente do lobisomem, labisônio, homem-cachorro, homem-lobo. O Tutu (Jimmy London) é o porco que mete medo nas correrias e que faz o som da mandíbula das queixadas. Eu mesmo, encontrei, na pesquisa do mestrado, uma história de um desses, em Belém, que fazia visagem no largo da Sé. Na série se aproxima mais do Tutu Marambá, que alguns consideram de origem africana. Tutu viria de Quitutu, que em quibundo significa justamente ‘comer’. É de onde vem a palavra quitute ou, por esse lado, o tutu de feijão dos mineiros, por exemplo. Assim também a Iara, que nem precisa falar nada, mas que na série é sereia e tem o poder de hipnotizar pelo olhar e pelo canto, dentro e fora da água. É preta (a linda Jéssica Córes), meio Marabô ou Oguntê, do repertório afro-brasileiro, pois diferente da mãe d´água cabocla, essa sai da água tranquilamente, veste roupa e sobe ladeira.

Os grandes entes da série são o boto (Victor Sparapane) e o curupira (Fábio Lago, estupendo). O boto não vou falar porque é spoiler demais. Tem que ver. O curupira faz todo o sentido, pois é de fato o grande protetor da mata. Domina o fogo no cabelo e mete medo até no Jurupari. A Netflix que lute! Teria que ler Stradelli e Nimuendaju, e conversar com a dona Cruzinha no Pacoval, sobre o Jurupari Taraca. E, por fim, o trunfo da série sem dúvida está no modo de contar do diretor Carlos Saldanha. O cineasta e animador brasileiro é mais conhecido por seu trabalho no exterior, inclusive foi indicado duas vezes ao Oscar e é responsável pelas animações A Era do Gelo, Rio e O Touro Ferdinando. Vale a pena assistir a série principalmente para quem nunca ouviu nada disso, nem leu ou não sabe de nada sobre o assunto, pois terá um olhar contemporâneo dos mitos indígenas, que fizeram compor o chamado folclore brasileiro, para lembrar Câmara Cascudo, cujo livro é folheado na trama. É o local de modo universal, e ao invés de pitoresco, o existencial.

Aldrin Figueiredo é professor na Universidade Federal do Pará e autor da obra 'A cidade dos encantados: pajelanças, feitiçarias e religiões afro-brasileiras na Amazônia: 1870-1950'.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

3º Seminário Amazônico de História e Natureza

 Você já imaginou participar de um congresso de alto nível sobre a Perspectiva Ambiental da História, sem sair da sua casa?


Em sintonia com a realidade atual e a preocupação em oferecer opções dinâmicas de divulgação científica, o Grupo de Pesquisa História e Natureza (CNPq/UFPA) realizará entre os dias 24 e 27 de novembro de 2020, o 3º Seminário Amazônico de História e Natureza (SAHN). 

O evento está recebendo resumos para comunicação oral e inscrições como ouvintes. 

A 3º edição será 100% online e contará com os mais renomados pesquisadores do campo da história ambiental no Brasil e internacionalmente. Abordaremos os temos históricos a partir do campo da história ambiental, considerando sempre a importância do debate interdisciplinar.  

Inscrições acesse https://sahn3.webnode.com/

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ourém de outrora: memórias na leitura do presente

Sueny Diana Oliveira de Souza*

 Nasci nas margens do rio Guamá, na pequena cidade de Ourém, fundada ainda no século XVIII, durante o governo de Mendonça Furtado, que com mais de 250 anos de existência foi desmembrada, dando origem a muitos outros municípios do nordeste paraense e se mantém pequena e com um ritmo de vida que parece desafiar o tempo marcado pelo relógio. Uma cidade cortada pelo rio que delimita a fronteira administrativa com a cidade de Capitão Poço, desvinculada de Ourém há 59 anos.

Ali, na vida cotidiana, o ir e vir sobre o rio é constante. Mas a relação com o rio, com as estradas e a ocupação tem sofrido grandes impactos e alterado a minha percepção sobre estes espaços.

Parto da minha infância na metade da década de 1990, quando vivia em uma cidade cuja sede municipal em quase nada destoava da sua zona rural, exceto pelo fato de possuir iluminação elétrica e possibilitar o acesso a alguns serviços básicos de saúde e educação. Uma cidade onde grande parte dos moradores retirava seu sustento das plantações na zona rural, que tinha na base da economia a agricultura familiar, o pequeno comércio e o funcionalismo público. Havia pouco mais de 15 mil habitantes em toda sua extensão territorial, as ruas praticamente sem pavimentação, onde galinhas, patos e animais de estimação circulavam, e quase todas as tardes também eram ocupadas pelo gado de rebanhos deslocados das áreas abertas onde pastavam para as fazendas onde ficavam confinados.

Um lugar que antes do raiar do sol era invadido por trabalhadores agrícolas que se deslocavam de bicicleta ou a pé para suas roças localizadas em comunidades no entorno do centro urbano. Era quase uma romaria que se repetida todos os dias, pela manhã e à tarde na volta para casa, exceto aos domingos. Num período em que as estradas eram caminhos um pouco mais largos por onde circulavam produtos agrícolas em geral, carregados em cavalos, burros ou bicicletas.

E foram por essas estradas que cumpri as jornadas de deslocamento para chegar à casa de meus avós e às terras de onde vinham nossos sustentos com o trabalho na roça de meu pai, avô, tios, primos e tantos outros familiares de sangue ou adquiridos pelas relações sociais e de trabalho.

O sítio localizava-se (e ainda existe no mesmo local) a oito quilômetros do centro urbano de Ourém, na margem do rio que agora está sob a jurisdição do município de Capitão Poço. Quase um acaso, fruto do processo de desanexação das terras, pois o fato de a comunidade familiar Santo Antônio localizar-se na margem do rio que não se encontra sob a jurisdição de Ourém, em nada influenciava na dinâmica cotidiana, pois as vendas e compras dos produtos agrícolas ocorriam nesta cidade, que também era lugar de moradia em alguns dias da semana. Era também a sede da cidade, um lugar que recebia procissões de pessoas para as missas aos domingos pela manhã. As pessoas que cruzavam o rio e o percebiam ora como um aliado elemento da natureza, ora como um desafio que precisava ser transposto nos deslocamentos contínuos.

As relações com o rio misturavam-se às relações de sociabilidades, que eram reafirmadas sempre quando fosse lhe transpor gritava-se de uma margem a outra pedindo aos moradores que fizessem nossas travessias em canoas. Embora os moradores desta localidade não se incluíssem na definição de ribeirinhos, provavelmente por não terem na relação com o rio a base fundamental para a subsistência de seus moradores, o rio era primordial na dinâmica cotidiana e representava a proximidade com a pesca artesanal, fonte essencial para a alimentação, que, aliada ao que se produzia nas roças garantia a sobrevivência dessas famílias. E as relações se alteravam dependendo do caminho a ser trilhado ou em que altura o rio seria atravessado.

O final da década de 1990 e início dos anos 2000 alteraram a relação com o rio e ampliaram a importância atribuída às estradas. A ponte de madeira que ligava Ourém a Capitão Poço foi substituída por uma de concreto, depois de quase ter sido arrastada pela força das águas de março no inverno amazônico. Desde então, os caminhos onde antes passavam bicicletas e cavalos passaram a ser alargados para que pudessem ser trilhados por carros e caminhões que começavam a se tornar mais frequentes e precisavam vencer as distâncias entre o centro urbano e os sítios e fazendas nos arredores rurais localizados em Ourém ou Capitão Poço.

As transformações espaciais da cidade foram acontecendo lentamente. As áreas abertas que antes recebiam gado para pastar ou eram usadas como campo de futebol por inúmeras crianças passaram a ser ocupadas com casas de moradia. Uma expansão que foi marcada pelo fortalecimento do comércio e migração de pessoas, muitas provenientes das zonas rurais, que vieram para Ourém trabalhar nos comércios ou nas seixeiras que passavam por um processo de ampliação.

As seixeiras passaram a se proliferar nas zonas rurais de Ourém, nas estradas que interligavam a São Miguel do Guamá, Capanema, Bonito e Capitão Poço. Grande parte desses estabelecimentos se localizavam seguindo o curso do rio Guamá, em diferentes locais da sua extensão.

Acompanhando esse novo momento na economia, veio a ampliação do número de habitantes na cidade e uma redefinição das zonas rurais, pois as pequenas propriedades rurais pressionadas pela corrida em busca do seixo deixaram de existir, o que levou muitos trabalhadores antes rurais a migrar para o núcleo urbano a fim de venderem sua força de trabalho para os donos das seixeiras.

As mudanças se deram no âmbito espacial, econômico, nas relações de trabalho e sociais, assim como esse processo trouxe uma face da violência que Ourém não conhecera até então. A cidade que não era assombrada por assaltos até o início dos anos 2000, passou a vivenciar o medo que se tornou frequente. E os meios de locomoção antes utilizados em sua maioria bicicletas foram substituídos por motos, que se multiplicavam cada vez mais.

E a relação com o rio? Ah! De elemento da natureza importante para a subsistência e que precisava ser transposto nos trajetos para as zonas rurais, passou a se restringir quase que exclusivamente como fornecedor de água para lavar o seixo nas seixeiras, que na segunda década dos anos 2000 ocuparam as margens de quase todas as estradas e por todas as suas respectivas extensões.

E nesse processo vi as terras antes trilhadas a pé no percurso até a casa dos meus avós ganharem estradas alargadas para possibilitar o trafego de carretas. Vi a natureza ser completamente alterada, com igarapés assoreados e as margens do Guamá completamente degradadas. Vi ainda barragens de resíduos da exploração do seixo serem construídas quase que às cegas e ameaçarem as comunidades que teimam em subsistir. E vejo as comunidades que ainda resistem terem suas atividades alteradas. Primeiro, porque os trabalhos agrícolas cada dia têm menos importância para a vida cotidiana e a opção de trabalhar para os outros torna-se mais atraente, assim como a venda das terras era o meio de conseguir uma quantia em dinheiro de forma mais rápida. Segundo, porque algumas comunidades ainda se mantêm por serem terras de herança e ainda contam com pessoas idosas, cujo apego e relação com a terra são ancoradas em memórias de tempos idos...

As empresas de exploração de seixo são empreendimentos que se instalam, aparentemente, sem nenhuma fiscalização ambiental têm transformado o espaço urbano e o rural de uma Ourém que continua pequena e cada vez mais enfrenta grandes problemas sociais, que parecem ser minimizados por ações como as vivenciadas a partir de 2010, quando levou energia elétrica às zonas rurais. E, como garantem empregos precários a uma parcela da população, provavelmente foram ignoradas tanto pelos habitantes quanto pelo poder público, que preferem fechar os olhos frente aos crimes ambientais, condições de trabalho precárias e falta de assistência e cumprimento da legislação trabalhista.

Caminhar por Ourém hoje é para mim viver um conflito constante entre as memórias de uma vida simples de grande interação com a natureza, de pouco acesso a bens materiais, de liberdade de circulação, que percebia a ida para igarapés e brincadeiras nos banhos de rio as faces do cotidiano. E um presente marcado por transformações sociais que trazem fortes impactos na natureza, com alterações nas paisagens e sentido atribuídos à relação com o rio e igarapés.    

Saí de Ourém em busca dos meus sonhos ainda na adolescência, no início dos anos 2000. Trilhei caminhos de pesquisa na graduação, mestrado e doutorado que hoje me fazem enxergar Ourém, suas fronteiras administrativas, problemáticas e relações sociais que se refazem, como em toda sociedade, mas para mim deixaram e deixam tristes expectativas, sobretudo por ser uma cidade marcada pela passividade, cujas transformações nas paisagens e degradação ambiental que têm poluído e acabado com igarapés e vêm desmatando e assoreando as margens ainda estreitas do Guamá de forma bem acelerada parecem não ser percebidas ou são facilmente ignoradas.

E, a vida segue ancorada em uma perspectiva de crescimento econômico ínfimo, com pouca ou quase nenhuma qualidade de vida, em uma relação com a natureza que se restringe a frequentar os balneários que se multiplicam e, para a sua existência, colocam em risco a existência dos mananciais que são represados para atender ao público, tendo suas margens desmatadas para a construção de bares e barracas. E, quase todos os anos, em períodos de águas altas no inverno amazônico, rios e igarapés são notados quando transbordam, cobrem os bancos das praças e invadem as casas, alterando o ritmo de vida de pessoas, com isso, muitos preferem acreditar que as forças das águas permanecem preservadas.

*A autora é professora da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará / campus de Ananindeua.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Uma planta em paralaxe: visões de natureza no filme 'O abraço da serpente'

Maria Góes
Ivana Machado
Evaldo Hughes
Maurício Silva

O filme "O Abraço da Serpente", lançado em 2016, com direção do colombiano Ciro Guerra, imerge nos sinuosos rios e imediações da Amazônia colombiana, em uma jornada entre duas temporalidades - os séculos XIX e XX, sendo fundamentado em pesquisas nos diários de expedições dos antropólogos Theodor Koch-Grunberg e Richard Evan Schultes. A sensibilidade semiótica da direção, integralmente em preto e branco, remetendo às fontes etnográficas clássicas, nos envolve em uma natureza que não se limita apenas ao palco da narrativa, transmutando-se também em um personagem, um sujeito meta-humano, que modifica e é modificado pelos seres, sincronicamente, durante todo o percurso. O próprio título reflete a composição sensorial do enredo, quando nos permite ter uma impressão visual do corpo da cobra realçada nas curvaturas dos rios, e os sons da floresta geram uma atmosfera que nos leva a adentrar os mistérios da mata fechada. Logo, é uma narrativa que leva o expectador a ser realmente abraçado por essa serpente que integra o mundo biofísico amazônico, num labirinto de texturas, sons e contrastes.


Somos defrontados por episódios que expõe as marcas da colonialidade nas Américas; o ciclo da borracha, as missões catequizadoras, o messianismo, o desenvolvimento da ciência, entre outros temas corriqueiramente encontrados em relatos escritos por viajantes do período. No entanto, o filme nos instiga a ir além do silêncio destas palavras que atravessaram o tempo, e trouxeram consigo o arquétipo de um índio singular e monocromático. Aqui, o não-dito toma forma, e nos mostra os indígenas, plurais, em várias nuances - indivíduos com agências e dissidências em meio a estes eventos, que expressam diferentes posicionamentos e formas de lidar com os entraves coloniais ao longo da trama. Karamakate, que teve seu povo totalmente dizimado pelos europeus, enxerga na colonização o signo da violência e destruição de tradições e existências, renunciando qualquer tipo de contato ou acordo ao isolar-se dos brancos e de outros povos que se relacionam com os colonizadores para preservar sua ancestralidade. Já Manduca, ajudante do cientista Theodor, aderiu aos costumes ocidentais e vê a ciência como horizonte para propagar conhecimento sobre os povos indígenas aos brancos.

A percepção dos personagens sobre alguns objetos nos convida a refletir sobre os paradigmas da alteridade, e a colisão cultural do encontro com a outra margem para além do Eu, o Outro. A utilização do mapa para guiar o caminho, que é uma representação sintética do espaço, a compressão de um “cenário” complexo, vivo e dinâmico, incomoda Karamakate, que interage com o espaço de forma mais espontânea, sem um objeto mediando o contato da paisagem com o ser, com o trajeto guiado pelo fluxo temporal da natureza, e não do ser humano. A densa carga que ambos europeus relutam em se desfazer, mesmo que dificulte a locomoção pelos rios, também pode ser analisada sob essa ótica. Ela representa o vínculo direto à suas nações, e a forma ocidental de lidar com o conhecimento – a ciência, que tende a categorizar e organizar os elementos do mundo em arquivos, relatórios, enfim, materializações, para explicá-los. É a única forma tangível que remete ao ethos europeu no meio de um lócus, um mundo cultural onde estes são estrangeiros. Para Karamakate, tudo isso parece frívolo, já que este possui o conhecimento vinculado à oralidade, sendo portador da própria tradição, sem a necessidade de uma documentação física para auxiliar seu exercício da memória. Ou seja, diferentes modos de lidar com os saber, que repercutem, consequentemente, em sentidos diferentes na mobilização dessa “bagagem” da experiência. 


Por fim, a busca pela planta mística Yakruna, que é o epicentro do enredo, confirma a intensa presença e poder que a natureza exerce sobre os personagens, ao atuar como um elo que perpassa os dois recortes temporais do filme. A planta é reinterpretada de acordo com a perspectiva sob a qual é submetida, possuindo simbologias e servindo a finalidades distintas. Os homens de ciência a enxergam como um elemento opaco, orientados por interesses de expansão econômicos e políticos ou pela promessa milagrosa de cura, já o personagem indígena Karamakate a percebe como elemento sagrado que deve ser preservado, pois é intrínseco a sua identidade étnica e pertencimento ao cosmos – a planta possibilita os rituais xamânicos que dão acesso ao conhecimento ancestral, sendo a serpente um ser mágico que criou a natureza e possibilitou a existência. Assim, o filme nos revela diferentes e contrastantes óticas sobre a natureza, dependendo do observador, e nos leva a refletir sobre nossa posição como seres portadores de historicidade dentro do mundo natural.

*as autoras e os autores são estudantes de graduação do curso de História da UFPA e membros do projeto de pesquisa 'Natureza nos relatos de viagem'.