terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Este rio é mais que minha rua - história através do rio Paracauari


A pesquisa se propôs a colocar em prática uma metodologia de ensinar história através dos rios, analisando as conexões entre a história das primeiras civilizações humanas que se organizaram nas margens dos rios e as vivências dos alunos do sexto ano do ensino fundamental da escola Oscarina Santos, localizada no município paraense de Salvaterra, no arquipélago do Marajó, considerando o conhecimento e a experiência desses estudantes a respeito do rio Paracauari. Como resultado dessa pesquisa, produzimos um plano de ensino anual, para introdução do meio ambiente nas aulas de história, que contempla as 60h/aula distribuídas em 40 dias letivos referente a um ano letivo para turmas de sexto ano. Esse plano é subdividido em planos de aula, sequências didáticas e atividades. Nosso público-alvo são os educadores de história que desejem introduzir história ambiental em suas aulas.

Palavras-chaves: Rios, ensino de história, Marajó.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Recursos hídricos e o ensino de história: projeto premiado

Dia 15 de dezembro, pelo canal do Youtube do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), foram divulgados os cinco professores vencedores do I Prêmio PI nas Escolas que teve como objeto o fomento, em âmbito nacional, da inserção da propriedade intelectual nas escolas da rede privada e pública de ensino, no âmbito federal, estadual e municipal, mediante o reconhecimento e valorização de professores da Educação Infantil ao Ensino Médio e Profissionalizante.

O prêmio foi dividido em cinco categorias:

Criatividade –Educação para a inovação e produção artística;

Cidadania –Educação para a cultura de respeito pela criação;

Tecnologia –Educação para a ciência e inovação;

Planeta –Educação para o aproveitamento sustentável e inovador dos recursos naturais; e

Negócios –Educação para o empreendedorismo.

A professora Ana Vieira de Oliveira, membro do Grupo de Pesquisa História e Natureza (GRHIN/UFPA) e mestranda no PROFHISTÓRIA-UFPA, venceu na categoria PLANETA com projeto executado na ilha do Marajó com seus alunos do EJAI (Educação de Jovens Adultos e Idosos) buscando fomentar a educação para o aproveitamento sustentável e inovador dos recursos naturais e receberá:

      Inscrição em curso do Programa de Ensino à Distância (EaD) desenvolvido pela Academia de Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento do INPI e/ou por entidade parceira

·     Recebimento, por meio de depósito bancário, do valor líquido de R$4.000,00 (quatro mil reais)

·      Certificado de Vencedora da categoria Planeta

Com projeto intitulado “RECURSOS HIDRICOS INDISPENSAVEIS NA ANTIGUIDADE E AGORA” Ana relatou experiência na Ilha do Marajó com alunos de 6º ao 9º ano do EJA sobre o histórico do tratamento de água e tecnologias de tratamento de água para consumo humano resgatando métodos antigos de purificação de água e buscando reproduzir um desses métodos antigos na feira de ciências da escola Oscarina Santos em Salvaterra-PA tendo como base a patente do tipo modelo de utilidade MU5800243 depositada no INPI em 1978 intitulada FILTRO DE AREIA PARA ÁGUA POTAVEL.



Para Ana Vieira “o prêmio PI nas escolas busca fomentar a propriedade intelectual e quando estimulamos os alunos a buscar a origem da patente do filtro no Brasil, buscando saber como ele era feito estamos valorizando os recursos disponíveis próximo da escola como areia da praia o entendimento das patentes que apresenta toda descrição detalhada de como reproduzir”

O projeto foi executado na Escola Oscarina Santos no município de Salvaterra-PA tendo como objetivos de aprendizagem ensinar aos alunos conteúdos de meio ambiente, sustentabilidade buscando relacionar com o cotidiano na Ilha do Marajó e de como os recursos hídricos são importantes tanto na antiguidade como na atualidade.

Caindo no esquecimento: o patrimônio natural de Ananindeua, memórias ambientais

A modernização de uma cidade, em alguns momentos, pode deixar de lado a natureza e suas grandiosidades. Isso é péssimo! A cultura, a sociedade, os seres vivos não vivem sem ela. Desde que o mundo é mundo, o meio ambiente está presente em todas as mudanças feitas no espaço e tempo. A cultura depende também da biodiversidade, principalmente na Amazônia.

O Parque Antônio Danúbio, primeiro parque ambiental do município de Ananindeua - PA acabou caindo no esquecimento, da população, e será que também das políticas públicas? Ou será que até mesmo ele fora apresentado para a sociedade ananindeuense?



Recentemente, ao buscar o Parque na internet, especificamente no Google, você verá que o mesmo se encontra fechado. Segundo Murakami Vidigal (2021), o Parque tem um grande potencial patrimonial para a cidade de Ananindeua, mas infelizmente, sem a preservação e o cuidado populacional e governamental, esse tipo de coisa acaba ocorrendo, ou seja, ele fecha. É muito triste perceber que o primeiro parque ambiental da cidade está esquecido e largado, não existem mais as estruturas e atividades de antigamente. A fauna e a flora que ali existem, estão ali sobrevivendo, dentro de um centro urbano, e mesmo assim, não tendo reconhecimento de seus valores.

A biodiversidade, principalmente na Amazônia, fala demais de nossos habitantes. Dentro do próprio Parque podemos reconhecer a identidade, cultura e história de Ananindeua através desses símbolos naturais. Contudo, sem esse cuidado e valorização do espaço, acaba-se caindo no esquecimento, não sendo reconhecido o valor e a potencialidade do espaço. É importante conhecer o nosso passado, o nosso presente, para preservá-los também no hoje e no amanhã.

Falar do futuro requer falar antes de qualquer coisa do tempo presente. Como pensar em uma sociedade melhor se não estamos preservando o nosso próprio presente? O Parque como patrimônio pode ser um recurso em tempo de crise, articulando o passado, presente e futuro de uma região, além de memórias coletivas, identidade e semióforos. (HARTOG, 2019).

Será possível resgatá-lo? Se “salvo”, será que a comunidade também iria interagir cotidianamente no espaço?

Referências

HARTOG, François. Regimes de Historicidade: presentismo e experiências do tempo.
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

MURAKAMI VIDIGAL, Victória Emi. Patrimônio Ambiental e Espaços Socioambientais e
Educativos no Parque Ambiental de Ananindeua Antônio Danúbio. Diálogos Ambientais
[recurso eletrônico]: com(ciência) e tecnologia. Belém – Pa: Cabana, 2020, p. 49 - 61.
Disponível em: https://drive.google.com/file/d/12FastWk_Qh-C1mfRrlMHxWRy12ZDRFS/view

*Victória Emi Murakami Vidigal é graduada em história pela Universidade Federal do Pará - campus Ananindeua e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência do Patrimônio Cultural - UFPA.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Nos tempos do Imperador

A estreia da novela “Nos tempos do Imperador” deixou as redes sociais alvoroçadas. Já recebi quatro pedidos de informação se realmente D. Pedro II esteve em Belém alguma vez, durante seu longo reinado. Engraçado que mandam junto vários posts, dos mais absurdos, daqueles historiadores de facebook bem empavonados cheios de verdades sinceras. Como a gente não sossega, lá vai, pois estou, não por acaso, escrevendo dois artigos sobre o assunto, junto com um ex-aluno e um aluno atual, nos quais a presença do imperador em Belém é parte da História.



Vamos lá. Sim. O Imperador esteve em Belém em 1876. Pedro II tinha planos de conhecer Belém por muitas razões – do viajante ao cientista, mas principalmente por razões de chefe de Estado. Lembre-se que desde a época de seu Pai, Pedro I, o título nobiliárquico de “Príncipe do Grão-Pará” era reservado ao segundo na linha de sucessão ao trono dos Bragança. O título fazia referência à então maior província do Império brasileiro, o Grão-Pará. Mais do que isso, contudo, o título simbolizava a integridade do Império, que compreendia em sua totalidade os antigos Estado do Brasil e Estado do Maranhão, posteriormente denominado Estado do Grão-Pará. Esse é um tema importante nas simbologias da nação e a viagem às terras da Amazônia fazia parte desse encontro com a “pátria” verde. No entanto, a viagem foi ficando pra trás. 

Em 1866, com a abertura do Amazonas à navegação estrangeira, o assunto veio de novo à baila. Festa pomposa foi preparada. Para cá vieram inúmeros profissionais e artistas, numa cidade que crescia impulsionada pela exploração da borracha. Em 1864, a goma elástica já havia ultrapassado o cacau nas balanças de exportação. Vieram os cenógrafos Giuseppe Leone Righini e Henri Langlois, os fotógrafos imperiais Felipe Fidanza e José Thomaz Sabino e os tipógrafos e artistas Karl e Bernhard Wiegandt. Montou-se grande pórtico, no cais do Porto, na antiga Rua Nova do Imperador, ao modo de arco do Triunfo. Enfeitou-se a cidade. Sabino fotografou toda a cidade e mandou os registros para encorajar a viagem da reticente imperatriz, por seus problemas de saúde e também por receio de doenças palustres. Felizmente parte desses registros estão hoje na coleção imperial da Biblioteca Nacional.

A Amazônia era paraíso, mas era inferno também. Se hoje muitos brasileiros têm uma visão completamente exótica e deturpada das capitais amazônicas, imagine-se há 150 anos. Pois bem, por causa de problemas de saúde de D. Thereza Christina, o casal imperial não veio. Enorme frustração causou na cidade e tudo foi desmontado. Os opositores ao regime fizeram chacota da viagem que não aconteceu. Porém, 10 anos depois, a caminho dos Estados Unidos, à bordo do vapor Helvetius, no dia 4 de abril de 1876, às 18h, os imperadores entraram na baía do Guajará. Como que por vingança, um forte aguaceiro, chuva daquelas, impediu que o navio atracasse. A cidade, uma milha distante, apesar do temporal, era vista toda iluminada. No dia seguinte, bem cedo, às 5.30 (isso é hora de visita?), Pedro II e Thereza Christina pisam no porto. 

Tudo que fora desmontado há 10 anos foi novamente posto em pé. Fidanza fotografou. Muitas dessas fotografias que ficaram em coleções particulares foram destruídas na sanha republicana de 1889. A gente sabe bem o que é isso! Porém ficaram muitos relatos, fragmentos dessa história, registros de toda ordem. Lojas se preparam para vender as modas próprias para o evento. O poder público mandou limpar a cidade (ah como é parecido) e recolher os animais que perambulavam pelas ruas. Os comerciantes presentearam o imperador com uma linda obra de Righini. Um passeio pela Estrada de São José toda ladeada de palmeiras imperiais, ali plantadas em 1841 em honra à aclamação dele próprio. Mostraram toda a "Cidade Imperial": a Estrada da Constituição (atual Gentil Bittencourt) nomeada em homenagem à Constituição de 1824, a Rua da Imperatriz (atual 15 de novembro) em homenagem à d. Thereza Christina, as ruas da Glória e do Príncipe em homenagem à sua irmã D. Maria da Glória e a ele mesmo quando criança; a 2 de dezembro (atual Generalíssimo Deodoro) em homenagem ao seu aniversário. Os republicanos mudaram todos os nomes imperiais para apagar esse passado da memória.  As grandes associações culturais, ligas, irmandades fizeram comissões para a receber Suas Majestades. O Gabinete de Leitura Português ficou os dois dias aberto para visitas públicas. A Igreja de Santana, na Campina, onde se costumavam realizar as cerimônias alusivas à família imperial fez missa cantada com toda a pompa. O bispo D. Macedo, célebre opositor do imperador na “Questão Religiosa”, não se fez presente. 

Um grupo em especial guardou lembrança do encontro. Os membros da Imperial Sociedade Beneficente Artística Paraense. O título imperial foi um presente de Pedro II. Em sinal de reconhecimento uma carta laudatória, artisticamente preparada por Wiegandt, foi entregue aos monarcas por uma comissão montada em fino de traje: Antônio Rodrigues do Couto, administrador do jornal Diário de Belém; o capitão Manoel Martiniano Cavalleiro de Macedo; o tenente Candido de Deus e Silva; o conhecido livreiro Levindo Antonio Ribeiro; o escriturário da Recebedoria de Rendas da Província José Manoel Borges Machado, que esteve como tesoureiro da Artística em 1874; e por fim o preto alfaiate Simeão Estelita dos Reis Guimarães. Este famoso preto, assunto para outros momentos porque é história e é longa. 

E assim o Imperador passou somente um dia alegre na cidade que jamais esqueceria. Sua irmã D. Francisca de Bragança se apaixonou pelo quadro do Righini. D. Thereza Christina fez álbum das fotos e a princesa Isabel manteve o título de Principe do Grão-Pará ao seu primogênito Pedro de Alcântara, nascido em 1875, cujo retrato em pintura foi exibido na Igreja de Santana. Belém ficou com o belo retrato pintado pelo paraense Constantino Pedro Chaves da Motta, em 1875, que agradou ao Imperador, e que hoje está na coleção do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. 

Sabemos de tudo e muito mais, por causa da imprensa da época, do Diário de Pedro II, dos relatos do jornalista americano James O’Kelly, que acompanhava o imperador, os registros fotográficos da coleção imperial e inúmeros textos escritos por copiosa historiografia, de Ignacio Moura a Ernesto Cruz, de Mário Barata a Donato Mello Junior, de Augusto Meira Filho a Vicente Salles. Querem mais provas coevas, vão pesquisar. História não é bagunça. Boa noite e boa novela.

* Aldrin é professor do Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia na Universidade Federal do Pará. Dentre outros títulos, publicou o livro 'A cidade dos encantados: pajelanças, feitiçarias e religiões afro-brasileiras na Amazônia: 1870-1950'. 

sábado, 9 de outubro de 2021

Mugunghwa: plantas como símbolo político

 'Round 6' é o novo sucesso da Netflix. A série apresenta a história de jogadores falidos que aceitam um estranho convite para um jogo de sobrevivência em busca de uma premiação milionária. Em uma das cenas mais marcantes, uma boneca gigante "brinca" como líder de costas para os outros participantes e diz uma frase: "Batatinha, 1, 2 3. Depois, ela se vira. Os jogadores precisam caminhar até onde está a boneca, mas só podem se mover quando ela não estiver olhando, caso contrário são excluídos.


Em sua língua original, o coreano, a boneca gigante diz  a frase "mugunghwa floresceu". A cena foi inspirada em uma brincadeira muito semelhante e tradicional na Coréia. Mugunghwa é como se chama na Coréia a hibisco-da-síria (Hibiscus syriacus), também conhecida como rosa-de-sarom ou mimo. A flor de hibisco é considerada símbolo nacional desse país asiático, sendo citada até mesmo no hino nacional sul-coreano. A referência ao vegetal se explica por sua resiliência em ambientes hostis e resistência diante de intempéries. 



Mugunghwa está presente nos relatos das civilizações asiáticas mais importantes como a Coréia e também a China, que passou a chamá-la de 'flor do paraíso'. A parte leste da península coreano já foi denominada de Geunhwahyang, que significa  “País das Mugunghwa” durante o governo da Dinastia Goryeo (57 aC - 935 dC). Registros pictóricos utilizam a flor de hibisco para representar poder e força. 

Por meio da natureza, neste caso a Mugunghwa , podemos ampliar nossa compreensão sobre a história de civilizações como a Coréia e sua relação milenar com as plantas. Destacamos também como ao longo do tempo espécies vegetais são utilizadas como emblemas de poder político e religioso. A própria Bíblia, no Antigo Testamento, já reconhecia a força da Mugunghwa (Cantares 2:1), o que nos faz refletir sobre a circulação de espécies na Antiguidade. 

Fonte: KIM, Mi-Hyun. A study on the development of fashion cultural products of national symbol using mugunghwa. Journal of the Korean Society of Costume, v. 62, n. 7, p. 29-40, 2012.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Interpretando os movimentos dos cabanos: entre as tomadas das vilas e o viver na natureza amazônica (1835-1840)


A Cabanagem é um dos episódios mais importantes da História da Amazônia. Os personagens humanos sempre estiveram no centro das discussões dessa temática. No entanto, a natureza é um elemento indispensável para ampliarmos nossa compreensão sobre esse capítulo da história. À convite do GRHIN, a profa. Magda Ricci (UFPA), uma das principais pesquisadoras desse tema, abordará a dimensão ambiental do movimento cabano na aula de abertura da disciplina 'História da Amazônia Oitocentista'.

Dia 05 de agosto, quinta-feira, às 15h30 pelo canal Historix no link https://youtu.be/2omuihyCYwM

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Borba Gato, os bandeirantes e o mundo natural

No ano de 1963 foi inaugurada na cidade de São Paulo uma estátua em homenagem ao bandeirante paulista Manoel de Borba Gato (1649–1718). Planejada pelo escultor Júlio Guerra, o monumento tinha como objetivo comemorar a atuação dos exploradores bandeirantes durante o período colonial no Brasil. Podemos falar em uma Memória Oficial que passou a considerar positiva a penetração das Bandeiras pelo interior do continente, sem criticar os prejuízos resultantes para as sociedades indígenas, negros e também para o meio ambiente. 

Desde 2017 a estátua de Borba Gato vinha sendo atacada por grupos de descontente com a Memória Oficial, reconhecendo esse monumento como um símbolo de tortura e pilhagem que marcaram a atuação das elites exploradoras coloniais. Em 2021, manifestantes atearam fogo na estátua, destruindo-a por completo. Tal ação parece acompanhar uma série de ataques a imagens escravocratas que ocupam praças e prédios públicos em diversas cidades por todo o mundo. 


Borba Gato tornou-se um importante administrador no sistema colonial portugues, chegando ao cargo de juiz ordinário da vila de Sabará. Sua notoriedade foi alcançada especialmente pela habilidade em ocupar áreas para extração mineral. Os documentos históricos registram sua perspicácia em negociar com diversas etnias indígenas ao ponto de se refugiar junto aos índios dos sertões da Bahia. Portanto, ele foi um súdito do monarca luso, bandeirante, que obedeceu e participou dos processos violentos de invasão do território.


Como bandeirante, Borba Gato percorria de forma diligente as florestas que cobriam os o sertão do rio Doce e o sertão do Parahytinga. Nos anos finais do século XVII, circulou com mais intensidade pelos rios e matas das regiões dos rios Grande e Sapucahy, explorando tabuleiros auríferos. Isso criava cada vez mais a necessidade de mão-de-obra escrava africana. 


No contexto das Bandeiras Paulista, a paisagem foi cada vez mais sendo transformada. Os leitos dos rios passaram a ser alterados para a extração principalmente de ouro que em nada beneficiava os moradores locais, mas sim enriquecia exclusivamente as nações europeias. 


O êxito das investidas bandeirantes pode ser melhor entendido quando trazemos os elementos ambientais para o centro da discussão. A negociação com os ameríndios permitia o conhecimento dos caminhos fluviais, modo de caça dos animais para a alimentação, confecção de instrumentos de pesca, qualidade das águas para matar a sede, locais e identificação de frutos nas matas e outras tantas questões desconhecidas dos exploradores.  Carvalho Franco, em sua obra Bandeira e bandeirantes de São Paulo (1940), aponta de maneira tímida as relações entre Borba Gato e o mundo natural, as travessias dos rios e a busca por caminhos seguros. 


Analisar a relação entre os bandeirantes e a natureza pode nos levar a reconhecer como o conhecimento indígena foi fundamental para a circulação dos exploradores no Brasil colonial. A natureza não foi apenas um cenário nesse contexto, mas sim um agente da história na medida em que impuseram inflexões aos planos dos agentes da Coroa portuguesa. 


Referência
FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. Bandeiras e bandeirantes de São Paulo. Brasiliana, 1940.