quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ourém de outrora: memórias na leitura do presente

Sueny Diana Oliveira de Souza*

 Nasci nas margens do rio Guamá, na pequena cidade de Ourém, fundada ainda no século XVIII, durante o governo de Mendonça Furtado, que com mais de 250 anos de existência foi desmembrada, dando origem a muitos outros municípios do nordeste paraense e se mantém pequena e com um ritmo de vida que parece desafiar o tempo marcado pelo relógio. Uma cidade cortada pelo rio que delimita a fronteira administrativa com a cidade de Capitão Poço, desvinculada de Ourém há 59 anos.

Ali, na vida cotidiana, o ir e vir sobre o rio é constante. Mas a relação com o rio, com as estradas e a ocupação tem sofrido grandes impactos e alterado a minha percepção sobre estes espaços.

Parto da minha infância na metade da década de 1990, quando vivia em uma cidade cuja sede municipal em quase nada destoava da sua zona rural, exceto pelo fato de possuir iluminação elétrica e possibilitar o acesso a alguns serviços básicos de saúde e educação. Uma cidade onde grande parte dos moradores retirava seu sustento das plantações na zona rural, que tinha na base da economia a agricultura familiar, o pequeno comércio e o funcionalismo público. Havia pouco mais de 15 mil habitantes em toda sua extensão territorial, as ruas praticamente sem pavimentação, onde galinhas, patos e animais de estimação circulavam, e quase todas as tardes também eram ocupadas pelo gado de rebanhos deslocados das áreas abertas onde pastavam para as fazendas onde ficavam confinados.

Um lugar que antes do raiar do sol era invadido por trabalhadores agrícolas que se deslocavam de bicicleta ou a pé para suas roças localizadas em comunidades no entorno do centro urbano. Era quase uma romaria que se repetida todos os dias, pela manhã e à tarde na volta para casa, exceto aos domingos. Num período em que as estradas eram caminhos um pouco mais largos por onde circulavam produtos agrícolas em geral, carregados em cavalos, burros ou bicicletas.

E foram por essas estradas que cumpri as jornadas de deslocamento para chegar à casa de meus avós e às terras de onde vinham nossos sustentos com o trabalho na roça de meu pai, avô, tios, primos e tantos outros familiares de sangue ou adquiridos pelas relações sociais e de trabalho.

O sítio localizava-se (e ainda existe no mesmo local) a oito quilômetros do centro urbano de Ourém, na margem do rio que agora está sob a jurisdição do município de Capitão Poço. Quase um acaso, fruto do processo de desanexação das terras, pois o fato de a comunidade familiar Santo Antônio localizar-se na margem do rio que não se encontra sob a jurisdição de Ourém, em nada influenciava na dinâmica cotidiana, pois as vendas e compras dos produtos agrícolas ocorriam nesta cidade, que também era lugar de moradia em alguns dias da semana. Era também a sede da cidade, um lugar que recebia procissões de pessoas para as missas aos domingos pela manhã. As pessoas que cruzavam o rio e o percebiam ora como um aliado elemento da natureza, ora como um desafio que precisava ser transposto nos deslocamentos contínuos.

As relações com o rio misturavam-se às relações de sociabilidades, que eram reafirmadas sempre quando fosse lhe transpor gritava-se de uma margem a outra pedindo aos moradores que fizessem nossas travessias em canoas. Embora os moradores desta localidade não se incluíssem na definição de ribeirinhos, provavelmente por não terem na relação com o rio a base fundamental para a subsistência de seus moradores, o rio era primordial na dinâmica cotidiana e representava a proximidade com a pesca artesanal, fonte essencial para a alimentação, que, aliada ao que se produzia nas roças garantia a sobrevivência dessas famílias. E as relações se alteravam dependendo do caminho a ser trilhado ou em que altura o rio seria atravessado.

O final da década de 1990 e início dos anos 2000 alteraram a relação com o rio e ampliaram a importância atribuída às estradas. A ponte de madeira que ligava Ourém a Capitão Poço foi substituída por uma de concreto, depois de quase ter sido arrastada pela força das águas de março no inverno amazônico. Desde então, os caminhos onde antes passavam bicicletas e cavalos passaram a ser alargados para que pudessem ser trilhados por carros e caminhões que começavam a se tornar mais frequentes e precisavam vencer as distâncias entre o centro urbano e os sítios e fazendas nos arredores rurais localizados em Ourém ou Capitão Poço.

As transformações espaciais da cidade foram acontecendo lentamente. As áreas abertas que antes recebiam gado para pastar ou eram usadas como campo de futebol por inúmeras crianças passaram a ser ocupadas com casas de moradia. Uma expansão que foi marcada pelo fortalecimento do comércio e migração de pessoas, muitas provenientes das zonas rurais, que vieram para Ourém trabalhar nos comércios ou nas seixeiras que passavam por um processo de ampliação.

As seixeiras passaram a se proliferar nas zonas rurais de Ourém, nas estradas que interligavam a São Miguel do Guamá, Capanema, Bonito e Capitão Poço. Grande parte desses estabelecimentos se localizavam seguindo o curso do rio Guamá, em diferentes locais da sua extensão.

Acompanhando esse novo momento na economia, veio a ampliação do número de habitantes na cidade e uma redefinição das zonas rurais, pois as pequenas propriedades rurais pressionadas pela corrida em busca do seixo deixaram de existir, o que levou muitos trabalhadores antes rurais a migrar para o núcleo urbano a fim de venderem sua força de trabalho para os donos das seixeiras.

As mudanças se deram no âmbito espacial, econômico, nas relações de trabalho e sociais, assim como esse processo trouxe uma face da violência que Ourém não conhecera até então. A cidade que não era assombrada por assaltos até o início dos anos 2000, passou a vivenciar o medo que se tornou frequente. E os meios de locomoção antes utilizados em sua maioria bicicletas foram substituídos por motos, que se multiplicavam cada vez mais.

E a relação com o rio? Ah! De elemento da natureza importante para a subsistência e que precisava ser transposto nos trajetos para as zonas rurais, passou a se restringir quase que exclusivamente como fornecedor de água para lavar o seixo nas seixeiras, que na segunda década dos anos 2000 ocuparam as margens de quase todas as estradas e por todas as suas respectivas extensões.

E nesse processo vi as terras antes trilhadas a pé no percurso até a casa dos meus avós ganharem estradas alargadas para possibilitar o trafego de carretas. Vi a natureza ser completamente alterada, com igarapés assoreados e as margens do Guamá completamente degradadas. Vi ainda barragens de resíduos da exploração do seixo serem construídas quase que às cegas e ameaçarem as comunidades que teimam em subsistir. E vejo as comunidades que ainda resistem terem suas atividades alteradas. Primeiro, porque os trabalhos agrícolas cada dia têm menos importância para a vida cotidiana e a opção de trabalhar para os outros torna-se mais atraente, assim como a venda das terras era o meio de conseguir uma quantia em dinheiro de forma mais rápida. Segundo, porque algumas comunidades ainda se mantêm por serem terras de herança e ainda contam com pessoas idosas, cujo apego e relação com a terra são ancoradas em memórias de tempos idos...

As empresas de exploração de seixo são empreendimentos que se instalam, aparentemente, sem nenhuma fiscalização ambiental têm transformado o espaço urbano e o rural de uma Ourém que continua pequena e cada vez mais enfrenta grandes problemas sociais, que parecem ser minimizados por ações como as vivenciadas a partir de 2010, quando levou energia elétrica às zonas rurais. E, como garantem empregos precários a uma parcela da população, provavelmente foram ignoradas tanto pelos habitantes quanto pelo poder público, que preferem fechar os olhos frente aos crimes ambientais, condições de trabalho precárias e falta de assistência e cumprimento da legislação trabalhista.

Caminhar por Ourém hoje é para mim viver um conflito constante entre as memórias de uma vida simples de grande interação com a natureza, de pouco acesso a bens materiais, de liberdade de circulação, que percebia a ida para igarapés e brincadeiras nos banhos de rio as faces do cotidiano. E um presente marcado por transformações sociais que trazem fortes impactos na natureza, com alterações nas paisagens e sentido atribuídos à relação com o rio e igarapés.    

Saí de Ourém em busca dos meus sonhos ainda na adolescência, no início dos anos 2000. Trilhei caminhos de pesquisa na graduação, mestrado e doutorado que hoje me fazem enxergar Ourém, suas fronteiras administrativas, problemáticas e relações sociais que se refazem, como em toda sociedade, mas para mim deixaram e deixam tristes expectativas, sobretudo por ser uma cidade marcada pela passividade, cujas transformações nas paisagens e degradação ambiental que têm poluído e acabado com igarapés e vêm desmatando e assoreando as margens ainda estreitas do Guamá de forma bem acelerada parecem não ser percebidas ou são facilmente ignoradas.

E, a vida segue ancorada em uma perspectiva de crescimento econômico ínfimo, com pouca ou quase nenhuma qualidade de vida, em uma relação com a natureza que se restringe a frequentar os balneários que se multiplicam e, para a sua existência, colocam em risco a existência dos mananciais que são represados para atender ao público, tendo suas margens desmatadas para a construção de bares e barracas. E, quase todos os anos, em períodos de águas altas no inverno amazônico, rios e igarapés são notados quando transbordam, cobrem os bancos das praças e invadem as casas, alterando o ritmo de vida de pessoas, com isso, muitos preferem acreditar que as forças das águas permanecem preservadas.

*A autora é professora da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará / campus de Ananindeua.


2 comentários:

Wendell P. Machado Cordovil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wendell P. Machado Cordovil disse...

Muito bom o texto da Dra. Sueny Oliveira. Memórias importantes e sensíveis sobre as mudanças do ambiente e paisagem ao longo do tempo.