sexta-feira, 21 de julho de 2017

Você acredita em encantados?

Por Moema Alves*

Há alguns meses, fazendo um passeio de barco com um pescador por alguns furos da vila de Algodoal, que fica na Ilha de Maiandeua, município de Maracanã (PA), ouvi várias lendas e histórias sobre os moradores mais antigos do local. Aprendi porque o tralhoto, simpático peixinho amazônico que parece pular sobre a água, vive na superfície, e porque o baiacu é pintado de branco e verde. Soube, também, que seu pai chegou a ver a Princesa, mulher loura e encantada cuja beleza maravilha os homens da ilha.
Quando lhe perguntei se ele próprio já tinha tido a oportunidade de vê-la, disse que não, mas que há uns quatro anos viu a Curupira e se perdeu por conta de seus encantamentos para evitar que ele continuasse a catar caranguejos. E depois de uma breve pausa, comentou, quase como um desabafo, que essas histórias que ele estava me contando eram muito comuns antes, “no tempo dos antigos”, mas que agora esses encantados não ficavam mais por lá, estavam “sumindo”...
- “Sumindo, Seu Dico? Como assim?”
E a explicação veio de forma tão simples e tão certeira, que até me sensibilizou: nos últimos anos, muita gente da cidade foi morar na ilha, pessoas que não conhecem aquelas histórias como os antigos conheciam e principalmente, que não acreditam nelas. Como os antigos foram morrendo e os novos não acreditam no mundo dos encantados, eles se mudaram para outras localidades mais longe. Além disso, agora a ilha atrai muitos turistas, muita gente diferente, fazendo com que as entidades não fiquem à vontade para aparecer.
E dessa forma, Seu Dico explicou a importância da crença para a sobrevivência dos entes fantásticos tal qual J. M. Barrie explicou em Peter Pan. Se em seu livro, as fadas morrem quando as crianças deixam de acreditar nelas, em Algodoal, na narrativa de Seu Dico, os encantados se mudam para onde acreditem neles. Se em Peter Pan é a inocência e a credulidade das crianças que permitem que as fadas vivam, nos pontos mais afastados dessa gostosa ilha paraense, onde ainda não tem tantas pessoas para questioná-las, as lendas também ainda podem viver tranquilamente.
Assim, um despretensioso passeio de barco tornou-se bem mais que uma agradável apreciação da natureza, foi uma verdadeira aula sobre memória local e tradição oral; sobre lendas amazônicas; sobre como os processos de ocupação vão influenciando nas formas de vivenciar um local. Terminei o passeio agradecendo a oportunidade de ouvir aquelas histórias e torcendo para que elas perdurem na narrativa local; saí querendo que aquelas explicações de mundo e formas de entender a natureza não precisem mais se mudar...

E se cada vez que uma criança diz que não acredita em fadas, em algum lugar uma delas morre, cada vez que um adulto deixa de acreditar nas histórias de encantados, um deles também morre nas narrativas de lugares como Algodoal. Não vamos ser nós que vamos contribuir para isso, não é? Então repitam comigo: “Eu acredito em encantados!”.

*Historiadora, especialista em Patrimônio e doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense.

2 comentários:

LABORATORIO DE DEMOCRACIA URBANA “Cidade Velha-Cidade Viva” disse...


Que bonitinho o relato dessa expriencia.

Domingos Oliveira disse...

Eu acredito em encantados.
Eu acredito em encantados.
Eu acredito em encantados.
PS. Égua da menina prá escrever bonito.